Um louco amor no museu

16 de Maio, 2012

Finalmente abriu, em Istambul, o Museu da Inocência. Contámos no post de dezembro de 2010 a nossa demanda em busca do que na altura não existia: um museu na rua Çukurcuma, anunciado por Orhan Pamuk no romance de 2008 “O Museu da Inocência”.

Retomemos a história passada entre Maio de 1975 e os últimos anos do século XX, que se conta rapidamente, sem que isso retire qualquer interesse a futuros leitores: Kemal é um jovem empresário filho de uma família abastada, frequenta os meios burgueses de Istambul e está noivo de Sibel, uma turca moderna que conhece bem a Europa. Passa parte do Verão numa casa nas margens do Bósforo (yalis) e com os seus amigos partilha uma admiração pelo modo de viver europeu. Perde-se de amores por uma prima afastada que é empregada de balcão.

Esta paixão obsessiva leva-o a recolher objetos que Fusun tocou ou usou e que ele guarda: beatas (mais de 4 000), travessões, brincos, lenços, sapatos, bilhetes de cinema e de autocarro, copos usados por ela. Com estes objetos decide preservar a sua paixão num museu, o que o leva a visitar 1743 museus do mundo para usar a metodologia mais adequada à sua constituição.

Artefactos expostos no Museu da Inocência / Bulent Kilic (AFP)/El Pais

A inauguração do museu foi sendo sucessivamente adiada, até que, finalmente, há cerca de quinze dias, o museu abriu as suas portas. Nos três andares do edifício vermelho da rua Çukurcuma, podem-se ver, segundo as reportagens dos jornais, milhares de objetos que refletem um tempo de uma cidade e que cumprem o desejo de Pamuk “Quero que o meu museu seja o museu da cidade, que inclua tudo, desde mapas das ruas, a fechaduras, a maçanetas de portas, passando por telefones públicos e o som das sirenes de nevoeiro”. Afinal, “documentos de uma Istambul que já não existe e um olhar poético ao passado da cidade através dos olhos de um apaixonado”, “Quero encher [o museu] modestamente com as coisas que fazem a cidade, que fazem qualquer cidade”.

As 639 páginas do romance são, assim, muito mais do que a história de um amor desmesurado de um homem por uma mulher: são antes de tudo a manifestação do amor por Istambul e o desejo de preservar a memória de uma cidade, de um tempo marcado pela nostalgia, pelo huzun.

O museu já tem um site:

http://www.masumiyetmuzesi.org/W3/Default-ENG.htm que anuncia que se levarmos o livro se cumpre a promessa do autor: na página 626 está um bilhete que dá direito a uma entrada individual no lugar onde parte da memória sentimental de Pamuk reside.

 

Objetos expostos no Museu da Inocência / Tolga Bozoglu (EFE)/ El Pais

 

Istambul por outros olhos

4 de Abril, 2012

 

Não é fácil aceitar outros olhares sobre um lugar que julgamos conhecer bem e que amamos. Por isso, foi feliz o encontro com o texto de reportagem da jornalista Ana Cristina Pereira publicado no FUGAS do jornal PÚBLICO: reconhecemo-nos, reconhecemos os lugares associados a sentires únicos e redescobrimos sítios e paisagens. Por isso, faz todo o sentido integrarmos no nosso blog a reportagem que foca o lado lunar de Istambul e, por isso, o seu lado luminoso. Já on line, pode ser lida AQUI.

A acompanhar as palavras da jornalista as fotografias cúmplices de Vitor Costa, a preto e branco, a condizer com o texto. Reproduzimos aqui algumas.

Visitem a reportagem porque há muitas maneiras de visitar ou revisitar Istambul. Esta é, seguramente, aliciante!

 

Com os pés no lado asiático de Istambul

15 de Março, 2012

 

Geralmente, a maior parte dos viajantes que visitam Istambul ficam fascinados pelo lado europeu da cidade limitando-se apenas ao avistamento do lado asiático que brilha ao longe iluminado pelos reflexos do Mar de Mármara.  Quem não põe os pés na outra banda não sabe o que perde!

A viagem de ferry  dura 20 minutos e vale por si: Istambul que se afasta, os contentores e guindastes do porto do lado asiático animam-se com os mergulhões, as gaivotas perseguem o pão atirado dos decks, os vapurs navegam em todas as direções …

É com alguma emoção que se pisa a antiga península da Anatólia que conhecemos da História. Os vestígios da fixação humana são mais antigos do que de qualquer parte da Europa. A primeira cidade grega (Calcedónia, atualmente Kadikoy) foi fundada em 675 aC, dezassete anos antes de Bizâncio. Não há muitos vestígios do passado porque devido à situação geográfica esta zona foi devastada por guerras frequentes.

Saímos no porto de Kadikoy que, juntamente com Uskudar, é uma das zonas mais desenvolvidas e com intensa atividade comercial. Desde cedo, na viagem de ferry, vemos um edifício imponente, a estação de Haydarpasa, que parece “deslocado” do ambiente: o estilo é neo-clássico, obra dos arquitetos alemães Otto Ritter e Helmut Conu que foi oferecido pelo imperador alemão Wihelm (1909).

A zona junto à estação tem pouco edificado porque grande parte pertence ao exército. Numa das alas de um dos quartéis, há um museu dedicado a Florence Nightingale que só pode ser visitado com marcação. Foi aqui que a enfermeira Florence desenvolveu a sua importante atividade junto de soldados britânicos, franceses e turcos feridos durante a guerra da Crimeia.

Percebemos que o lado de lá de Istambul é diferente antes de mais porque há poucos turistas nas ruas com um intenso movimento de pessoas que entram e saem das lojas. Mas tal como nas outras zonas de Istambul, os seus habitantes reservam momentos do dia para sós ou acompanhados olharem as águas e os céus que banham e envolvem a cidade. É esta atitude de contemplação que nos questiona. O que é que esses olhares privilegiam? O espelho de água, o movimento intenso das embarcações, as gaivotas, os céus limpos ou enevoados, o perfil do outro lado da cidade? Ou olham para dentro de si mesmos?

Quando voltarmos a Istambul, sentar- nos-emos num banco de qualquer margem, olharemos o horizonte e esperaremos que esse estado nos proporcione a contemplação que a cidade inspira.

Ver e ouvir a Cristina em Istambul

18 de Janeiro, 2012

Eram cerca das 21:00 e passeávamos na Avenida Istiklal que se mantinha cheia de gente em passo razoavelmente relaxado. As lojas ainda estavam abertas e os carrinhos de toldos às riscas vendiam castanhas quentes e milho assado. A multidão falante provoca um som morno, um burburinho colectivo que é manso.

De vez em quando ouve-se a campainha do eléctrico que nervosa e incisiva avisa que é preciso que se afastem dos carris. A multidão aparta-se sem pressas porque não acredita em atropelamentos naquele lugar que é propriedade dos peões.

De súbito, ouvimos uma música cantada em português. Procuramos de onde vinha o som e olhamos uma janela iluminada. Do alto do segundo andar, emoldurada por um florão  de pedra, a janela deixava ouvir o canto limpo da Cristina Branco que dizia: “sete gritos por gritar, sete silêncios viver, sete luas por brilhar e um céu para acontecer“.

Conhecíamos bem a letra da canção e, mesmo sem jeito, fizemos de coro cantando para a janela. Lembramo-nos que foi um amigo holandês que, há uns anos, nos deu a conhecer a Cristina já famosa na terra dele e quase desconhecida na nossa.

O destino dá muitas voltas e quando regressarmos a Istambul, entre 18 e 23 de Fevereiro com um grupo de portugueses, vamos poder ver e ouvir a Cristina ao vivo no auditório Cemal Reşit Rey Konser Salonu, no dia 22 à noite. Talvez a desconhecida janela com o seu florão apareça também.

 

Sete pedaços de vento AQUI

 

Istambul em números

9 de Janeiro, 2012

 

No nosso blogue, privilegiamos as experiências que vamos acumulando nas viagens que fazemos a Istambul em que as fotografias têm um papel muito importante. Alguns leitores colocam-nos questões objectivas sobre o número de habitantes, a economia, educação, saúde, etc. Encontrámos alguns destes dados num documento publicado pela municipalidade de Istambul (2010). Partilhamos esses números que ajudam a compreender melhor a cidade.

Demografia
População: 12.915.158 (2010)

Densidade populacional: 2.444 pessoas/km2 (26 vezes o número do resto do país que é de 94 pessoas por km2)

Taxa de crescimento da população: 3.3 % por ano;

35 % da população vive no lado asiático e 65 % no lado europeu

51 % da população é constituída por homens (na Turquia a taxa é 50%);

62.24 % da população nasceu fora de Istambul.

Geografia
Área: 1,830.92 km2
Elevação: 100 m.

Coordenadas: 41.09 Norte, 29.42 Este

Montanha mais elevada: 537 metros (montanha Aydos no lado asiático)

Concelhos: 151
  Freguesias: 817  
Distritos 39

Clima
Temperatura média: 13,6º

Taxa média de humidade: 79 %

Temperatura média do mar: 15-16º

Edificações

Habitações: 869.444
Mesquitas:  2.944 (em 2009)

Igrejas: 50

Sinagogas: 16

Universidades: 29

Trânsito
Veículos motorizados: 2.710.802 (1 carro por cada 5 pessoas) em Agosto de 2009 (estima-se em 3 milhões em 2010)

1/5 dos carros na Turquia (aproximadamente 13.800.000 nos finais de 2008) estão em Istambul. Cerca de 500 carros novos por dia!!!

Estradas: 25.000 km

Polícia de trânsito: 2.293

Táxis: 17.395 (em 2010)

Autocarros: 3.838

Veículos: 2 441 667 (em 2007)

Pontes: 2 sobre o Bósforo (537.000 liras turcas em portagens pagas diariamente por cerca de 381,091 veículos)

Aeroportos: 2 internacionais, 1 privado, vários aeroportos militares

Barcos de pesca:  2 058

Turismo
Turistas: 7.049.234 (em 2008), 28% das chegadas totais à Turquia (cerca de 26 milhões de turistas em 2008)

Hotéis/Motéis: 766 (28 de 5 estrelas, 57 de 4 estrelas, 80 de 3 estrelas, 75 de 2 estrelas, 18 de uma estrela, 38 com categorias especiais)

Camas: 93.300 (Agosto de 2010)

Agências de viagem: 1 511

Monumentos:  63 museus, 64 mesquitas históricas, 66 escolas corânicas históricas, 49 igrejas históricas, 1 sinagoga histórica, 17 palácios

Estabelecimentos de lazer:  405

Economia
Orçamento municipal: cerca de 18 biliões de LT (liras turcas)

Contribuição para o orçamento nacional : 6.454.947 milhões LT

% no PNB: 23

%
Fluxo de divisas: 3 820 386 391 TL

Total de depósitos no sistema bancário turco: 25%

PNB per capita: 3.063 USD (7º na Turquia, sendo 1ª a província de Kocaeli com 6,165 USD)
%  na colecta fiscal nacional: 40%

Filiais bancárias: 1.730 (aproximadamente 29% do total)

Zonas de Comércio Livre: 4 (Trácia, aeroporto Ataturk, Industria de Couros, Bolsa)

Import/Export: 57% das exportações e 60% das importações centram-se em Istambul (em 2005), maior exportação é textil

Firmas comercias: 267.248 (63.31 % de sociedades), 29,5 % do total da Turquia

99% dos trabalhadores são do sector privado
1% são funcionários públicos (30,5 % do total de trabalhadores da Turquia encontram-se em Istambul)

53.3 % da população trabalha nos serviços
 32.2 % na indústria
 8.1 % na agricultura 
6.2 % na construção (em 2000)

Taxa de desemprego: 15,5 % (461.185 pessoas)

Segurança Social:  4.057.090 pessoas, cobrindo cerca de 90% da população

Educação
Taxa de literacia: 93.39 % (com mais de 6 anos de idade), à frente da média nacional (87,32 %)

Estudantes: 2 323 628 (ensino primário e secundário)

Escolas primárias e secundárias: 2 707

Universidades 23 (29 % das universidades da Turquia estão sediadas em Istambul)

70% dos estudantes frequentam universidades públicas;

30% frequenta universidades privadas

Saúde
Hospitais: 194 (em 2005), 71% dos quais (140) são privados

Camas de hospital:  33,721 (em 2004)

Médicos: 12.827 (1.617 doentes por médico)

Farmácias: 4.494

Centros de sangue: 31

Centros de diálise: 70

Laboratórios de Raio X: 350

Lares da Terceira Idade: 61 (33 são privados), com 5.535 camas (em 2004)

Cultura
Bibliotecas: 72

Centros culturais:  62

Centros de congressos/feiras: 8

Salas de Concertos: 28

Cinemas: 70

Teatros: 23

Galerias de arte: 68

Jornais: 337 locais e 28 jornais nacionais

Media: 15 estações de televisão e 130 estações de rádio

Desportos
Desportistas registados: 105.009 (61.708 activos)

Estádios:  16 relvados (com capacidade para 139.729 espectadores) e 11 de terra batida

Tiro Olímpico: 1

Salões de bowling: 9

Campos de golfe: 3

Futebol:  5 equipas na 1ª Liga, 11 equipas na 2ª Liga, 10 equipas na 3ª Liga (na época 2008-2009)

Clubes desportivos:  470 clubes de futebol, 190 de basquetebol, 92 de voleibol, 16 clubes para deficientes, 251 de karate/judo/taekwandoo, 68 de boxe

Consumos básicos
Consumo de electricidade: 22.983.837 milhões  Kw/h por ano

Consumo de gás natural: 3.757.000.000 m3

Consumidores de gás natural: 3.005.000 (eram 172,000 em 1993)

Consumo de água: 2.000.000 m3 por dia, 174 litros por pessoa por dia

Fonte: Municipalidade de  Istambul

Os pescadores de Istambul

26 de Dezembro, 2011

Sempre admiramos os pescadores que passam horas e horas agarrados à cana de pesca com os olhos postos num eventual movimento denunciador da presença de peixe. Nunca ousamos falar com nenhum com receio de interromper o que parecem ser profundas reflexões sobre o mundo, a vida e sabe-se lá que mais.

Achamos os pescadores de Istambul especiais, porque são muitos, mesmo muitos, ao longo das vastas margens do Bósforo e do Mar de Mármara, e não é exagero dizer-se que fazem parte da paisagem da cidade. Vimos, na ponte Galata, talvez a maior concentração de pescadores por centímetro quadrado: de dia e de noite, a ponte está cheia de pescadores, muitos dos quais controlam mais do que uma cana.

O calor intenso do Verão, a chuva e a neve de Inverno, não esmorecem a militância da pesca. Cobrem-se de plástico quando a chuva é intensa e, nas noites geladas, levam aquecedores a gás que partilham. Aliás, deve ser a única coisa que dividem entre si porque a sabedoria, a arte, é de cada qual …

O silencio é aqui mesmo de ouro e até os vendedores de milho assado, simit, doces e frituras se aproximam suavemente, comunicando por gestos não vá o peixe espantar-se. O barulho dos carros, dos ferries e dos barcos que cruzam a ponte por cima e por baixo, não conta, parecendo não perturbar nem pescadores nem pescaria. A saída de peixe é frequente e dá gosto ver no fio dançarino um peixe que num ápice aterra em baldes cheios de água.

Confessamos que somos mirones interessados em pescadores, sobretudo os de Istambul e, muito especialmente, os que pescam no tabuleiro da ponte que une as margens separadas por um braço do Bósforo. Percorrer a ponte Galata de dia e de noite vale pela paisagem que se desfruta e vale muito também pelos pescadores que a habitam.

 

A espera em Istambul

28 de Novembro, 2011

 

Na mesquita, o tempo era de oração e, por isso, tínhamos de esperar. Queríamos repetir fotografias das abóbadas iluminadas pela luz da manhã de sol e estava fora de questão desistir.

Conformamo-nos  à espera na fila de turistas que se ia formando. E foi o olhar preguiçoso que começou a descobrir as sombras na parede, as fissuras da pedra, os gatos que esperavam uma meiguice nossa, as formigas que saiam de um buraco, as pegadas no chão, as folhas recentemente caídas. Íamos sentindo o lugar do tempo, de tantos tempos presentes naquele lugar.

De repente, aquele pequeno mundo que nos rodeava ganhava um imprevisto interesse e foi com pena que ouvimos o inglês que nos seguia na fila dizer que devíamos avançar.

A experiência da espera prolongou-se no interior da mesquita ao olharmos os crentes e quando suspendíamos a respiração para não comprometermos a focagem das fotografias captadas com pouca luz.

Naqueles momentos e nos dias que se seguiram, passamos a percepcionar a espera de outro modo. Percebemos que a espera é uma aparente pausa na sequência da vida e que as esperas valem por si como componentes importantes do presente. Descobrimos que a espera nos deixa desfrutar o mundo de outro modo e que nos leva a pensá-lo e sentir-lo de outra forma.

Passámos então a olhar de outra maneira os pescadores na ponte Galata, os passageiros na estação de ferries de Karakoy, os crentes à entrada das mesquitas, os vendedores nos bazares, os homens e as mulheres nas esplanadas e nos jardins.

A espera pode ser mais do que uma pausa, as esperas podem ser momentos cheios de vida dentro. Descobrimos isso à espera, em Istambul.

Arte Contemporânea em Istambul

21 de Novembro, 2011

Cecilia-Paredes, Siren-in-the-sea-of-roses, 2011,Arthobler-Gallery,Oporto, Portugal

Entre os dias 24 e 27 de Novembro realiza-se em Istambul uma grande exposição de arte contemporânea onde estarão presentes cerca de 90 galerias de vinte países com trabalhos de pintura, escultura, vídeo, fotografia, instalações…

Os números impressionam: serão exibidos cerca de 3 000 trabalhos da autoria de 526 autores prevendo-se que a exposição seja visitada por mais de 60 000 pessoas e por cerca de 1 000 coleccionadores.

Portugal marcará presença através da Galeria ArtHobler do Porto que exporá trabalhos de Carlos No, Cecília Paredes (autora da primeira imagem deste post), Jakub NepraŠ, Josef Bolf, Robert Schad, Rómulo Celdrán e Sabhan Adam.

Informações sobre este evento podem ser consultadas AQUI

 

Istambul a preto e branco

13 de Novembro, 2011

Regressámos a Istambul e como acompanhávamos um grupo de novos visitantes repetimos visitas aos lugares incontornáveis da cidade: Hagia Sofia, Mesquita Azul, Hipódromo, Torre Galata, Estação Sirkeci, Grande Bazar, Bazar Egípcio, os cemitérios … A revisitação leva a que se vejam as mesmas coisas de outro modo e se descubram outros olhares e outros sentidos. Desta vez, demos uma cor (o preto e branco) e usámos um outro meio (o Iphone) para registar os lugares bem conhecidos. Aqui ficam algumas dessas notas visuais.

Quentes e boas!

29 de Outubro, 2011

As castanhas aparecem nas ruas de Istambul quando os ventos que sopram do Bósforo começam a esfriar. Como cá, as castanhas estão associadas ao Outono e ao Inverno e aparecem à venda nos carrinhos de toldo às riscas.

A preocupação na apresentação das castanhas é grande: estão alinhadas em fileiras e alguns vendedores até as organizam em figuras geométricas. O corte na casca é preciso, rigoroso, e a boca aberta das castanhas é quase igual. Não são vendidas à dúzia como cá, mas são pesadas: 100gr custam 4 liras, 150gr 5 liras e 300gr 10 liras.

À noite, o negócio não pára e, junto aos portos dos ferries, na Avenida Istiklal e nos cruzamentos mais movimentados, vendem-se castanhas. Para atrair a clientela, os vendedores iluminam o produto com candeeiros e com linhas de luzes a fazer lembrar o Natal.

Comprámos junto à Ponte Galata castanhas “quentes e boas”, já a noite ia avançada. À medida que íamos comendo, constatávamos que são diferentes das nossas: menos assadas, mais rijas, menos farinhentas. Achámos que as nossas são melhores talvez porque são assadas em lume vivo, talvez  por serem acompanhadas pelo pregão, eventualmente por serem mais toscas ou por nos deixarem os dedos sujos de fumo.

Depois de elencadas as razões (patrióticas?) que nos levavam a defender as nossas castanhas como mais quentes e melhores, deixamo-nos de tretas e fomos espreitar os pescadores na ponte.