Arquivo da Categoria ‘Sabores’

O restaurante na prisão

Sexta-feira, 25 de Março, 2011

Apesar de termos subido muitas vezes a ladeira onde fica o restaurante «The Galata House», não o descobriríamos não fora o Tiago Salazar. Por palavras e por escritos, o jornalista andarilho avisara-nos que não podíamos deixar de ir ao encontro do “turco anarquista” Mimar Mete Göktug, dono do restaurante que ocupa o edifício que foi a prisão inglesa de Istambul durante a I Guerra Mundial (1904-1919).

Em 1991, dois arquitectos – Mete e a sua mulher Nadire – compraram a prisão tendo dedicado oito anos a restaurar o lugar de má memória. Os três pisos testemunham a sua origem e percebe-se que foram mãos entendidas e sábias que desenharam a minuciosa recuperação.
Apresentámo-nos como amigos do Tiago Salazar e Mete, no português doce do Brasil, deu-nos as boas-vindas e levou-nos para uma mesa no 2º piso junto à janela. Lamentou não poder dar a atenção que dois portugueses mereciam mas sobrava trabalho porque o restaurante estava cheio.

No vai e vem do leva e traz, foi-nos contando a razão da sua atracção por Portugal e pela cultura portuguesa: um encontro no Brasil com um grupo de oposicionistas portugueses, mais precisamente um grupo de resistentes comunistas, acordara o seu interesse pelo país. Aderiu ao ideário marxista, tendo o tempo ditado a desilusão com as suas expressões práticas. Hoje, declara-se um defensor do «anarquismo científico» e procura pelo desenho, pela pintura e pela poesia situar-se no mundo.
Ama Istambul, a sua cidade, reconhecendo muitas identidades com Lisboa: a situação geográfica que proporciona uma luz especial reflectida pelos seus estuários e também a nostalgia que marca os dias das duas comunidades, o fado, o “huzun”.

Na sala onde jantámos, o piano testemunhava os interesses e as memórias dos dois arquitectos, dominando os registos de Nadire. Soubemos que são frequentes os serões em que o piano acompanha poemas ditos e cantados, alternando com conversas e debates. As vozes de Camões, Bocage e Alexandre O’Neil são presenças fortes e também os fados de Amália e de Marceneiro. Na altura, nada disto nos pareceu estranho ou insólito …
Mas passemos agora para a mesa: o menu traduz uma conjugação inesperada das culinárias do turco Mete e da caucasiana Nadire. Assim, começámos com uma selecção de “meze” (entradas turcas) que quase constituem uma refeição.

Como pratos principais acolhemos duas sugestões georgianas: “Çakapuli”, um estufado de borrego com molho de estragão e de ameixas, e “Ostri”, um goulash de carne de vaca com tomate, amêndoas, cogumelos e coentros. Para sobremesa mantivemos as mesmas coordenadas geográficas e saboreámos “Kuş Sutu”, um bolo georgiano de chocolate coberto com merengue que pintámos com chocolate derretido.

Despedimo-nos prometendo voltar e continuar uma conversa que prevemos sempre inacabada. Em silêncio, descemos a rua olhando com mais atenção os prédios neo-clássicos, marcas do antigo poder da zona. Ouvíamos os nossos passos na noite e, ao descer as extraordinárias escadas hexagonais, percebemos mais uma vez que as viagens são sobretudo feitas de encontros inesperados. Nunca imaginámos encontrar um turco e uma caucasiana que celebram a cultura portuguesa num restaurante em Istambul que foi uma prisão inglesa.
Afinal, tudo ou quase tudo é possível!

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Encontro de chefes

Sexta-feira, 18 de Fevereiro, 2011

São raras as oportunidades de se participar numa experiência gastronómica que junte chefes de países diferentes na celebração da arte de bem comer. Pois tivemos a sorte de participar num jantar em que o chefe Albano Lourenço partilhou a sua cozinha do Restaurante Boca do Lobo (Hotel Infante Sagres, Porto) com um dos mais reputados nomes da gastronomia de todo o mundo: o chefe turco Musa Dagdeviren.

O primeiro encontro deu-se na própria cozinha do hotel e logo aí deu para perceber que a boa disposição, a cumplicidade e o entendimento mútuo eram grandes. Através de Albano soubemos que Musa se deliciou no mercado do Bolhão à procura de produtos frescos e cheirosos. Admirou-se que a venda fosse feita essencialmente por mulheres, ao contrário do que acontece na Turquia em que nos mercados os vendedores são homens.

O chefe Musa é uma personagem muito particular: privilegia a gastronomia feita pelos pobres porque na sua opinião a grande arte de cozinhar é transformar produtos simples e baratos em manjares elaborados, requintados e saborosos. Este conceito tem-no levado a investigar a arte da cozinha turca mais antiga através da investigação documental e dos testemunhos que recolhe viajando por todo o país.

Por isso é que durante o jantar nos perguntava qual o melhor livro de cozinha portuguesa, se há comidas especiais para eventos especiais (casamentos, baptizados, velórios, festas), como usamos as especiarias, etc. Mas esta preocupação não é resultado de uma mera curiosidade: edita uma revista Yemek ve Kültür (Comida e Cultura) em que com a colaboração de historiadores procura recuperar os sabores esquecidos das antigas receitas para fazer o seu registo e depois as produzir dando-lhe uma interpretação pessoal. O design gráfico da revista condiz com a qualidade dos temas.

São famosos os seus três restaurantes em Istambul que ficam em Kadıköy, na zona asiática da cidade: Çiya Kebap, Çiya Kebap II, and Çiya Sofrasi. Ora, experimentar estes lugares e recomeçar a conversa com Musa são razões mais do que fortes para voltar a Istambul.

Deixamos aqui a ementa em que as duas gastronomias se fundiram numa proposta que se revelou inesquecível. Convém confessar que os vinhos turcos ajudaram à festa dos sabores: este encontro entre o Ocidente e o Oriente enquadrava-se na 3ª Conferência Internacional de Enoturismo que se realizou no Porto organizada pela DOC DMC.

Aqui se regista o menu que degustámos. Que a água vos cresça na boca que é sinal de saúde e boa disposição para a vida!

• Bacalhau à Brás
• Coelho “Tavsan Ovmasi”
• Salada de Vieiras caramelizada, vinagreta de manga, redução de beterraba e vinho do Porto
• Sopa de lentilhas vermelhas com bulghur
• Filete de pregado com puré de bola de aipo com crosta de broa de Avintes e molho de açafrão
• Cherry Kebab
• Sinfonia de sobremesas Musa & Albano
Café e infusões

Por cá, por lá

Sexta-feira, 28 de Janeiro, 2011

São cada vez mais frequentes e significativos os eventos que reflectem uma troca intensa entre Portugal e a Turquia. O facto de Istambul ter sido a Capital Europeia da Cultura e o processo de aproximação à União Europeia explicam parte deste acontecer.
Desta vez falamos de Istambul, da Turquia a partir de várias vozes: de uma exposição de fotografia, da proposta de férias culturais na Turquia, da gastronomia turca no seu melhor no Porto e em Lisboa e de um grupo do facebook. É este menu variado que passamos a apresentar. Comecemos pela mesa!

O Ocidente e o Oriente à mesa

No âmbito da 3ª Conferência Internacional de Enoturismo que decorrerá no Porto de 31 Janeiro a 3 Fevereiro, as gastronomias portuguesa e turca vão encontrar-se e procurar explorar os sabores do Ocidente e do Oriente. Dois chefes representam Portugal: Albano Lourenço (Restaurante Boca do Lobo do Hotel Infante Sagres – dia 2 e 3 de Fevereiro, jantar) e Joachim Koerper (Restaurante Eleven – dia 5 e 7 almoço e jantar).

De Istambul vem o célebre chefe Musa Dagdeviren que à mesa do restaurante “Çiya” inova a gastronomia turca recuperando receitas e modos de cozinhar há muito perdidos no tempo. É por isso, que o New Yorker titula um artigo que lhe dedica, The Memory Kitchen.


Este chefe defende uma opinião que há muito partilhamos: a gastronomia mais saborosa é a cozinhada pelas classes sociais com mais dificuldades económicas porque é preciso muito empenho e imaginação para transformar alimentos “mais pobres” em deliciosas refeições. Musa afirma que as pessoas com menor poder de compra investem na comida, “criam com alma e beleza interior”.

Vamos tentar acompanhar a vinda de Musa Dagdeviren a Portugal e dar notícias. Esperamos que aos temperos das gastronomias turca e portuguesa se juntem os temperos dos afectos e das emoções. Afinal, o que se come e como se come diz muito sobre os povos e as suas culturas.

Férias culturais na Turquia

Foi no âmbito da capital Europeia da Cultura que a Associação de Amizade Luso – Turca organizou o “Encontro de Verão Turquia-Portugal 2010″. A ideia é proporcionar outra vez um Verão multicultural em que os participantes desenvolvam um conjunto diversificado de actividades: cursos de língua turca (níveis básico e intermédio leccionados na Universidade de Fatih), workshops artísticos (música com Ney, pintura Ebru, caligrafia, decoração Tezhip), visitas aos principais centros histórico-culturais de Istambul e de outras cidades, degustação das tradicionais ementas turcas, etc.

É Associação de Amizade Luso-Turca que assegura a marcação do alojamento, do transporte no interior da Turquia, dos cursos e das visitas guiadas. A marcação da viagem de ida e volta fica a cargo dos participantes, mas há preços especiais pela Turkish Airlines que tem uma parceria com a Associação.
Informações sobre preços e outras condições podem ser obtidas directamente na sede da Associação de Lisboa (213012064) ou do Porto (226103917) ou através do email info@turquiaportugal.com .
As vagas para este programa de Verão são limitadas.

Istambul em Lisboa

Inaugura no dia 5 de Fevereiro, às 16:00, a exposição colectiva de fotografia “Istambul” com a participação de: Sonja Valentina, Teresa Lamas Serra, Dália Diegues, Filipe Mota Rebelo e Orlando Rebelo. No dia 5, cinco fotógrafos expõem cinco formas diferentes de ver e viver Istambul.
De comum, têm o mesmo deslumbramento pela cidade que se divide nos dois continentes. Aqui ficam dois dos trabalhos, um de Teresa Lamas Serra, o outro de Orlando Rebelo.

Para verem mais olhares destes e dos outros fotógrafos têm um mês. Parte de Istambul, morará nas paredes da Associação de Amizade Luso-Turca, na Avenida da República 49 2º, em Lisboa.

Lá & Cá no facebook

Criámos há alguns meses no facebook o grupo Lá & Cá Turquia & Portugal que conta já com mais de 400 membros. É um grupo que se define assim: “Este é um espaço onde se possam partilhar impressões, experiências, fotografias e textos sobre a cidade de Istambul e sobre a Turquia. A viagem que se fez ou se deseja fazer a este lugar do mundo é um bom estímulo para a colaboração.”

Tem sido muito motivadora a troca de informações que se faz directamente nos posts do grupo e nas mensagens. Tem sido bom saber que esse espaço contribui também para levar mais pessoas a conhecer a cidade e o país. Aqui fica a informação e o convite para que viajantes e andarilhos que gostam de Istambul e da Turquia coloquem as suas imagens e registem as suas impressões.
O Lá & Cá mora AQUI.

Beringelas, figos, conversas e

Sábado, 8 de Janeiro, 2011

Eveline Zoutendijk é uma holandesa com um percurso de vida muito peculiar. Tirou o Grande Diploma de chefe de cozinha no Le Cordon Bleu de Paris e integrou uma equipa de dezasseis homens na cozinha de um restaurante com estrelas Michelin, na Holanda. Trabalhou no Hotel St. Regis, em Nova Iorque e “abriu” o Four Seasons George V, em Paris. Em 1997, decide viajar pelo mundo e, em Maio desse ano, a Turquia causa-lhe um forte impressão.
Dois anos depois, toma uma decisão radical: mudar-se para Istambul e aí reorganizar a sua vida. Depois de várias experiências, decide abrir um espaço próprio – Cooking Alaturca – onde, para além de um restaurante, dá aulas de cozinha otomana.

Descobrimos este lugar no Google, quando procurávamos aulas de culinária turca. Consideramos que a gastronomia é uma das mais fortes manifestações da cultura de um povo e as experiências que já tínhamos tido noutras viagens mostraram que as aulas de culinária misturam os ingredientes prescritos nas receitas com a História do país.
Às 16:00 apresentaram-se os candidatos a aprendizes de feiticeiro na aventura da gastronomia otomana: dois jovens casais australianos e dois canadianos (pai e filho).
Eveline avisa que vamos ter que “meter a mão na massa” e, por isso, há que pôr aventais. O chefe turco Feysi, apesar do inglês elementar, fazia-se entender através de gestos eficazes. Os dois conseguiram que o grupo se organizasse e ao longo de duas horas preparámos cinco pratos.

Para além de uma deliciosa sopa de lentilhas vermelhas e bulgur com menta seca e pimento vermelho, preparámos uma entrada com espinafres e queijo a que se seguiu a perna de borrego abraseada e estufada com legumes e com um acompanhamento muito especial e que já reproduzimos várias vezes desde que chegámos: beringela fumada.

Merece, por isso, uma atenção especial: pega-se na beringela e coloca-se directamente sobre o fogo (na chama do fogão a gás ou no braseiro do churrasco) A beringela está pronta quando a pele se apresenta tostada e que se retira facilmente pegando pelo pé com a ajuda de uma faca. Corta-se aos pedacinhos e esmaga-se em puré com um garfo. Envolve-se com um pouco de molho bechamel e assim fica pronto um acompanhamento delicioso e com um sabor único. Se em Portugal se diz que há mais de 1000 maneiras de se cozinhar bacalhau os turcos utilizam a mesma expressão para a beringela. A fumada é uma das nossas preferidas.

Depois de tudo preparado fomos para a mesa onde se misturaram os cheiros das especiarias, os sabores surpreendentes, as experiências vividas em Istambul com histórias de vida tão diferentes mas tão parecidas no gosto pela boa culinária e pelo prazer de viver a cidade.

À sobremesa comemos figos recheados com nozes que fizemos estagiar numa calda de açúcar, água, um gomo de limão e cravinhos. Terminámos a refeição com um café turco que Feysi fez questão que preparássemos.

No fim, despedimo-nos; nós e os outros aprendizes, percebemos que seria difícil voltarmo-nos a encontrar. Mas talvez no Canadá e na Austrália a beringela fumada, a sopa de lentilhas, o borrego estufado ou os figos tenham trazido à memória as horas em que juntos partilhámos os sabores da cozinha otomana.

NOTA
O preço da sessão e do jantar é de cerca de 60€ por pessoa.
Localização – Akbiyik Caddesi 72ª, em Sultanahmet
Site – http://www.cookingalaturka.com/

De volta a Istambul

Quinta-feira, 2 de Dezembro, 2010

Chegámos ontem dia 1 ao fim da tarde e fomos surpreendidos com uma inesperada temperatura de cerca de 20º. A saída do aeroporto foi rápida mas a viagem até ao pequeno hotel na zona de Sultanahmet demorou mais de 30 min.O trânsito do aeroporto até ao centro é intenso e quase caótico. Chegados ao hotel, decidimos pousar as malas e satisfazer um desejo adiado: comer peixe frito num dos restaurantes da Ponte Gálata.

Atravessámos a ponte, como de costume, estava com a lotação de pescadores quase esgotada: dos dois lados, dezenas de canas de pesca eram observadas com atenção. O mais pequeno movimento provocava o sobressalto do proprietário e dos pescadores vizinhos, sempre em actividade constante: pôr isco, mudar chumbeiras, rematar fio, ajeitar o peixe pescado.

Descemos para a parte inferior da ponte onde restaurantes de peixe se alinham. Resistimos aos apelos dos que em turco parece que nos ofereciam peixe fresco a bom preço. Escolhemos o “Fish Point” pelo nome, por ser o último restaurante de uma das bandas e, sobretudo, por ter só clientes turcos. Pedimos peixe frito em pão. O empregado não escondeu a sua decepção: afinal, seria de esperar de turistas europeus mais arrojo.

Em poucos minutos chegou um pão aberto com o peixe à espreita acompanhado por uns farrapinhos de alface a dar o ar da sua graça. Como achamos que, quando comemos, comemos também o que está à volta, podemos dizer que o cenário assegurou um repasto de luxo: as mesquitas iluminadas por entre as casas, os vapur a navegar silenciosamente sobre o som das ondas do Bósforo … A cavala frita soube a divina iguaria.

Achamos que a noite não podia acabar ali: fomos à procura das doces baclava na rua Isketlal que, às 11 horas da noite, estava cheia de gente. Para finalizar em beleza, fomos beber um chá de maçã ao Café Ara, propriedade do grande fotógrafo Ara Guler. Numa das paredes estava uma das suas fotografias da Ponte Gálata com mais de 30 anos. Reconhecemo-la tal qual. Um dia destes, voltaremos com mais tempo à ponte e ao café.

Na cozinha

Quarta-feira, 10 de Novembro, 2010

Descobrimos a beringela quando estivemos em Istambul há mais de 10 anos. Não se pode esquecer a gastronomia de um país que nos dá a conhecer o legume espelhado de cor e forma únicas. Tal como os portugueses, os turcos gostam de comer e de falar de comida. E muito há a dizer sobre o lugar do iogurte, das beringelas, do borrego e de tantas aromáticas especiarias. Lá chegaremos!

Para apreciar totalmente uma gastronomia não basta desfrutá-la: é preciso saber confeccionar pelo menos alguns dos seus pratos para podermos saborear melhor os seus segredos. Foi este espírito que nos levou a participar no workshop realizado no dia 6 na sede da Associação de Amizade Luso-Turca no Porto.

A orientadora da função culinária é uma jovem turca – Rukyie – que vive em Portugal há quase 6 anos e que com o seu marido gere o restaurante Istambul (Rua Entreparedes, Porto). Propôs-nos cozinhar uma sopa e “borek”de espinafres (o Google Tradutor não sugere tradução para o termo). Comecemos pelos borek que os turcos comem ao pequeno-almoço com chá, como entrada de uma refeição, ao lanche … enfim, todas as alturas são boas para comer borek. Mas passemos à acção.

Prepara-se a massa com farinha, água, sal e fermento de padeiro que repousa meia hora para levedar. Divide-se a massa em bolas que se estendem com um rolo formando círculos que são barrados generosamente com manteiga deixando-se repousar mais 5 minutos.

Prepara-se o recheio com espinafres cortados às tiras, queijo feta desfeito grosseiramente com as mãos e cebola picada. Mistura-se tudo muito bem.

Estende-se a massa num pano tornando-a o mais fina possível e espalha-se o recheio Enrola-se a massa sobre si mesma levantando o pano.

Formam-se espirais e levam-se ao forno num tabuleiro depois de pincelar a superfície com ovo. Retira-se quando a massa estiver dourada e estaladiça.

Gostamos dos borek crocantes com o seu recheio quente e o queijo feta fundido. Cabe experimentar os boreks frios que, no dizer de Rukyie, é a forma mais saborosa de comer estes rolos dourados. Passámos de seguida a confeccionar uma sopa (Tarhana Gorbasi), boa em qualquer época do ano mas especialmente reconfortante em dias de frio. No dia a seguir, fomos almoçar ao restaurante de Rukiye onde experimentámos algumas das especialidades turcas mais apreciadas pelos portugueses.

Segue-se a receita da sopa e algumas informações sobre o restaurante. Bom apetite, que é como quem diz: Afiyet olsun!

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Rosas turcas

Sábado, 24 de Julho, 2010

As montras das pastelarias  de Istambul iluminadas ao fim da tarde são irresistíveis porque é nessa hora que as baclava e os lokum brilham mais dourados e luminosos. Quase a chegar à ponte Gálata, parámos para olhar as doces geometrias numa montra e quando nos preparávamos para tirar mais uma fotografia da doçaria bem encenada, alguém vem de dentro e oferece-nos dois lokums róseos: “Provem rosas turcas!”. Apesar daquele não ser o melhor aperitivo para o jantar que se aproximava, não resistimos ao convite daquele homem que esperava expectante pela nossa opinião. A massa de açúcar foi-se desfazendo lentamente na boca e, pela primeira vez, provámos rosas que juraríamos ser vermelhas. Alguma coisa naquele sabor perfumado nos remetia para a cor forte de veludo macio.

O homem não nos queria vender delícias turcas. Pensamos que, ao ver-nos disponíveis por detrás do vidro da montra a admirar os doces patamares, lhe apeteceu conversar. E assim aconteceu: ouvimos durante mais de vinte minutos um turco de meia idade a discorrer sobre as rosas da Turquia. Soubemos então que existem mais de vinte espécies nativas de rosas turcas e que algumas delas crescem até em dunas de areia. As gul (rosa em turco) são usadas para vários fins mas destaca-se pelo seu valor económico e cultural a produção de attar de rosas que em árabe quer dizer fragrância. Colhidas ao nascer do sol, as pétalas são destiladas para se separar a água dos óleos essenciais. Foram os turcos otomanos que desenvolveram este processo e o espalharam pelas várias províncias do seu império por mais de cinco séculos.  Para se produzir um kg de óleo são necessárias quatro toneladas de rosas o que aproxima  o preço deste produto do preço do ouro. Tem origem na Turquia mais de 60% do óleo produzido no mundo.

A conversa prometia futuro mas o nosso compromisso para o jantar apressou o fim. Prometemos voltar um dia para comprar lokums de rosas e continuar a ouvir as histórias das rosas turcas que se combinam com a História da Turquia.

A partir desse fim de tarde, passámos a dar mais atenção ao lugar das rosas na vida e na cultura turcas. Estão presentes nos tapetes, nos azulejos, nos ornamentos em pedra e gesso em casas e palácios, na cerâmica, nas roupas preciosas  dos sultões, na joalharia, nas lajes dos cemitérios … Nos mercados, as pétalas de rosas combinadas sugerem chás perfumados, os óleos das massagens frescura e relaxamento, o perfume de rosas promete memórias persistentes.

Outros testemunhos conduziram-nos à culinária: as rosas são usadas em várias receitas, destacando-se a geleia de pétalas de rosas e o pudim de Noé. A receita da geleia, excelente no pão ao pequeno almoço, e a história do Noé seguem no atalho já a seguir!

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As romãs de Istambul

Domingo, 21 de Fevereiro, 2010

As romãs de Istambul são diferentes na cor e no sabor. Pode ser impressão nossa, talvez porque se mostrem em todo o lado tendo como vizinhas as laranjas. Não resistimos a fotografá-las até porque é um dos nossos frutos preferidos.

Soubemos que o nome português romã deriva directamente do termo árabe rumman, enquanto que os termos pomegranate, grenade, granatapfel do inglês, francês e alemão remetem para a “descrição” do fruto: maçã com muitas grainhas ou sementes.O nome em turco é curto: nar.  Não conseguimos descobrir a sua origem.

Em muitas culturas a romã está associada à fertilidade, à abundância tendo sido consagrada pelos gregos a Afrodite, a deusa do amor. Segundo os textos bíblicos, Moisés trouxe romãs de Canaan como prova de que a terra prometida era fértil. Segundo o Corão, a romã é um exemplo das coisas boas criadas por Alá e é um dos frutos do Paraíso. Entre os hindus é dedicada a  Bhoomidevi, deusa da Terra. Para os judeus a romã é o símbolo da rectidão porque teria 613 sementes que correspondem aos 613 mandamentos da Tora. Não tivemos paciência para contar os grânulos das romãs que trouxemos porque eram muitos!

Em Istambul, experimentámos e gostámos do sabor único do sumo de romã que é feito na hora, mesmo ali à nossa frente. Não resistimos a trazer um saco de romãs turcas. Sirvam-se!

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Simit

Quarta-feira, 3 de Fevereiro, 2010

Simit é um pão em forma de argola com muitas sementes de sésamo no topo e que é vendido nas ruas. Fazem parte da paisagem de Istambul os carrinhos às riscas vermelhas e brancas que vendem simit e é difícil resistir quando o vendedor anuncia “Taze simit!”, “Simit fresquinho”.

Estas roscas de sésamo podem ser barradas com manteiga ou acompanhadas com compotas, mel ou iogurte.  Mas, no breve intervalo dos passeios nas ruas de Istambul, sabe bem comê-lo sozinho, leve e crocante.

Já a seguir, uma proposta …

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Delícias turcas 2

Quinta-feira, 21 de Janeiro, 2010

Lokum

A palavra Lokum é usada para designar o que podemos traduzir por “doces turcos”. Na sua origem etimológica a palavra quer dizer “satisfação da garganta” com certeza pelo facto de serem muito doces e se desfazerem com facilidade na boca.

Há notícia que são fabricadas em Istambul desde o século XVI quando o mel e o melaço eram usados como adoçantes e vendidos em pequenos blocos produzidos com água e farinha. O açúcar ainda não tinha chegado, então, à Turquia o que só viria a acontecer no fim do século XVIII.

Os lokum são os doces mais fotogénicos pois são brilhantes e de cores diversas. Na base da sua confecção está o amido, água, mel, açúcar e os ingredientes que fazem variar a cor e o sabor: pistácio, canela, café, laranja, cereja, damasco, maçã, cravinho … Alguns incluem frutos secos. Tal como as baklava é na loja Haci Bekir que se encontram os lokum mais saborosos. Vendem-se em caixas de papelão e conservam-se durante cerca de uma semana.

Numa das visitas que fizemos a uma mesquita fomos abordados por duas mulheres que distribuíam ladrilhos de lokum às pessoas que iam saindo talvez para fornecer energia aos crentes depois da oração. Eram lokum simples sem sabor especial. Durante razoáveis minutos, uma textura macia que se ia lentamente desfazendo passeou-se na boca. As gargantas ficaram satisfeitas.

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