Poemas 1

Abrimos no Facebook um grupo a que chamamos Lá & Cá – Turquia & Portugal, um sítio onde as pessoas interessadas possam registar as suas impressões, experiências, fotografias e também textos, poemas, sugestões de livros sobre a cidade de  Istambul e/ou sobre a Turquia.

A primeira intervenção coube a Jorge Velhote que registou dois poemas de dois poetas turcos – Erdal Alova e Adnan Ozner – o primeiro traduzido por Fiama Hasse Pais Brandão e o segundo pelo próprio Jorge Velhote. Haverá melhor maneira de se inaugurar um espaço?

Aqui ficam os dois poemas que convocam o Bósforo, os céus nublados, as águas, os ventos e tanto mais em Istambul.

TESTAMENTO

Novembro, Novembro, estou certo
Numa noite de Novembro
Deve ter nascido Istambul… Ver mais
A sua parteira um sol ardente
Enrolou-a num cobertor lilás
Embalou-a no berço das ondas
Os ventos que sopram do norte
Segredaram-lhe o nome ao ouvido

Quando morrer
Enterrem-me nos céus de Istambul.

ERDAL ALOVA

Tradução de Fiama Hasse Pais Brandão

SECRETO CRESCIMENTO DO AMOR

Conto na minha rede durante o inverno os dias de cardumes frios.
Aquele verão não voltará!
Aquele amor vivido que não começou… Ver mais
está na minha memória como vela por acender.
Frente ao Bósforo que de boca rasgada
torce as águas
soletramos-lhes o nome do martim-pescador
pássaro daqueles lugares como veleiro branco.

A tónica do inverno é clara, uma voz isolada,
sem nos tocar nem tirar nada de nós sopra
directamente de lugares nunca visitados.
voa com a boca rancorosa do sexo.
Para nosso aviso arroja bem longe
o mapa de altas e baixas marés.
Nem expansão, nem recuo;
nós ao meio do imaginado
o tempo que penetra em dois,
dois pontos sonâmbulos.

Agora, até tu, para este poema
fechado em si mesmo, voz solitária,
no calendário dos cardumes frios de inverno
és só uma folha que cai por si própria.

O martim-pescador agora voará
para uma palavra nova num dicionário desconhecido.

ADNAN OZER

Tradução de Jorge Velhote

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3 Comentários a “Poemas 1”

  1. Elsa Viegas diz:

    Sim. Não há melhor maneira de começar. Mas ainda não estou no face book. Talvez lá chegue. Mas ao ler sobre o hazun,sobre a melancolia , os poemas, não pude deixar de me lembrar imediatamente de Cesário Verde e da primeira estrofe do poema Ave-Marias e de um Natal em casa dos meus pais termos passado o tempo a decorá-la.
    Nas nossas ruas ao anoitecer,
    Há tal soturnidade há tal melancolia,
    Que as sombras, o búlicio, o Tejo, a maresia
    Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
    Será isto hazun?Gostei do vosso texto, das fotografias e dos poemas. Muitos parabéns!

  2. istambul5dias diz:

    A ligação ao sentimento de Cesário Verde é uma sugestão estimulante, uma pista a explorar.
    Agradecemos o contribuição.

  3. Elsa Viegas diz:

    Que vergonha! É huzun! Desculpem a desatenção.

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