O que dizem de Istambul 3

Descem-se as colinas íngremes de Beyoglu, os subúrbios tristes e silenciosos rente às casas de madeira com janelas em sacada, e logo se desemboca na Ponte Galata e na confluência de águas simétricas do Bósforo e do beco do Corno de Oiro, que divide Istambul em duas partes. Um longo mar navegado por vapur e mais um número incontável de embarcações, de navios cisterna a cargueiros escuros e ferrugentos, de fragatas a barcos de passageiros. Através dos prédios, começam logo a divisar-se as silhuetas da cidade velha, paisagem interminável que se espraia da colina do Palácio de Topkapi ao farol da Ponta do Serralho, a célebre “paisagem de Istambul” que enamorou um sem número de pintores impressionistas, como Dufy ou o ilustrador alemão Melling (e o próprio Pamuk, no seu pretérito artístico). Paisagem onde figuram ainda os seis minaretes da mesquita Azul e as “chaminés” de Aya Sophia, a catedral-mesquita, obra-prima bizantina usurpada na sua fé após a queda de Constantinopla nas mãos dos otomanos. É à medida que se desce o olhar (como se descerrassem as cortinas para a soirée) que a cidade nos acontece.

Tiago Salazar, As Rotas do Sonho, 2010

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