Arquivo do mês de Março, 2011

O restaurante na prisão

Sexta-feira, 25 de Março, 2011

Apesar de termos subido muitas vezes a ladeira onde fica o restaurante «The Galata House», não o descobriríamos não fora o Tiago Salazar. Por palavras e por escritos, o jornalista andarilho avisara-nos que não podíamos deixar de ir ao encontro do “turco anarquista” Mimar Mete Göktug, dono do restaurante que ocupa o edifício que foi a prisão inglesa de Istambul durante a I Guerra Mundial (1904-1919).

Em 1991, dois arquitectos – Mete e a sua mulher Nadire – compraram a prisão tendo dedicado oito anos a restaurar o lugar de má memória. Os três pisos testemunham a sua origem e percebe-se que foram mãos entendidas e sábias que desenharam a minuciosa recuperação.
Apresentámo-nos como amigos do Tiago Salazar e Mete, no português doce do Brasil, deu-nos as boas-vindas e levou-nos para uma mesa no 2º piso junto à janela. Lamentou não poder dar a atenção que dois portugueses mereciam mas sobrava trabalho porque o restaurante estava cheio.

No vai e vem do leva e traz, foi-nos contando a razão da sua atracção por Portugal e pela cultura portuguesa: um encontro no Brasil com um grupo de oposicionistas portugueses, mais precisamente um grupo de resistentes comunistas, acordara o seu interesse pelo país. Aderiu ao ideário marxista, tendo o tempo ditado a desilusão com as suas expressões práticas. Hoje, declara-se um defensor do «anarquismo científico» e procura pelo desenho, pela pintura e pela poesia situar-se no mundo.
Ama Istambul, a sua cidade, reconhecendo muitas identidades com Lisboa: a situação geográfica que proporciona uma luz especial reflectida pelos seus estuários e também a nostalgia que marca os dias das duas comunidades, o fado, o “huzun”.

Na sala onde jantámos, o piano testemunhava os interesses e as memórias dos dois arquitectos, dominando os registos de Nadire. Soubemos que são frequentes os serões em que o piano acompanha poemas ditos e cantados, alternando com conversas e debates. As vozes de Camões, Bocage e Alexandre O’Neil são presenças fortes e também os fados de Amália e de Marceneiro. Na altura, nada disto nos pareceu estranho ou insólito …
Mas passemos agora para a mesa: o menu traduz uma conjugação inesperada das culinárias do turco Mete e da caucasiana Nadire. Assim, começámos com uma selecção de “meze” (entradas turcas) que quase constituem uma refeição.

Como pratos principais acolhemos duas sugestões georgianas: “Çakapuli”, um estufado de borrego com molho de estragão e de ameixas, e “Ostri”, um goulash de carne de vaca com tomate, amêndoas, cogumelos e coentros. Para sobremesa mantivemos as mesmas coordenadas geográficas e saboreámos “Kuş Sutu”, um bolo georgiano de chocolate coberto com merengue que pintámos com chocolate derretido.

Despedimo-nos prometendo voltar e continuar uma conversa que prevemos sempre inacabada. Em silêncio, descemos a rua olhando com mais atenção os prédios neo-clássicos, marcas do antigo poder da zona. Ouvíamos os nossos passos na noite e, ao descer as extraordinárias escadas hexagonais, percebemos mais uma vez que as viagens são sobretudo feitas de encontros inesperados. Nunca imaginámos encontrar um turco e uma caucasiana que celebram a cultura portuguesa num restaurante em Istambul que foi uma prisão inglesa.
Afinal, tudo ou quase tudo é possível!

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Mel em Portugal

Quarta-feira, 23 de Março, 2011

Mel é um filme do realizador turco Semih Klapanoglu que já ganhou vários prémios nos maiores festivais de cinema do mundo. Com interpretações de Bora Altas, Erdal Besikçioglu, Tülin Özen, o filme Mel (Bal em turco) ganhou o Urso de Ouro (Melhor Filme) Festival de Berlim 2010. Para os críticos do jornal Le Monde: «O cinema de Semih Klapanoglu apazigua, fascina, cresce.»

O filme relata a história de Yusuf que tem 6 anos. O pai é um apicultor que tem de subir às árvores da floresta para aceder às colmeias e recolher o mel. A floresta apresenta-se para a criança como um lugar de perigo mas ao mesmo tempo como um lugar fascinante e misterioso que o faz sonhar. Com o pai aprende a ler a natureza: os nomes dos pássaros, o cheiro e o sabor das flores, o espaço, o tempo… É um conhecimento diferente do recebido na escola onde as aprendizagens são outras e adquiridas de outro modo.

São vários os testemunhos sobre a beleza e qualidade do filme. Destacamos o comentário de Francisco Ferreira, no Expresso: “uma parábola da infância e dos seus segredos. Uma profissão de pura fé no poder da mise-en-scène. De uma beleza arrebatadora.”
[…] planos-sequência majestosos, uso exclusivo de luz natural. […] objectivamente, o filme é belo. Mas também solene. E sufocado de talento. Kaplanoglu falou dos valores da natureza, de toda uma cosmogonia inatacável e da influência de Vermeer…»

O filme estreia em Portugal, no Porto, nos cinemas Medeia no Teatro do Campo Alegre: de 24 a 30 Março, todos os dias às 18h30 e 22h (excepto 29 Março, só às 18h30). Esperamos que outras salas, noutras cidades acolham este filme.

Diálogo inter-religioso e intercultural

Quarta-feira, 16 de Março, 2011

No dia 18 de Março, sexta-feira, pelas 18:00, realiza-se no Salão Nobre da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, uma conferência subordinada ao tema “Inter-religious and Intercultural Dialogue between Christians and Muslims in Turkey”

O orador é o padre Thomas Michel doutorado pela Universidade de Chicago em estudos árabes e islâmicos. Desde 1981 que ocupa vários cargos que têm como centro o diálogo entre cristãos e muçulmanos. A partir de 2009, integra a comunidade jesuíta de Ancara, a única comunidade católica que intervém na cidade.
A sessão é aberta a todos os interessados.

Contra o mau-olhado

Terça-feira, 8 de Março, 2011

O amuleto turco que protege contra mal-olhado está em todo o lado: azul, com a forma de um olho, está pendurado em vários lugares das casas, nos escritórios, hotéis, restaurantes, nos espelhos dos automóveis, nos carrinhos de bebé, nas rédeas dos cavalos. Brincos, pulseiras, colares, alfinetes, quadros, imãs para frigoríficos, autocolantes, são algumas das imensas aplicações do amuleto. Podem também aparecer estampados em cortinas, estofos, lenços …

O uso do amuleto, em língua turca, nazar boncuğu ( nazar significa mau-olhado, ou “olho do diabo” e boncuğu significa amuleto), defende a pessoa do mau-olhado. A crença de que a inveja de alguém, manifestada através do olhar, possa prejudicar uma pessoa não é exclusiva da Turquia, sendo uma superstição muito comum no sul da Ásia, na Arménia, no Irão e na generalidade dos povos mediterrânicos.

Alguns autores defendem que uma das origens desta crença reside no Egipto: quando Horus abriu os olhos, o mundo iluminou-se, quando os fechou, ficou encerrado nas trevas. Há também referências ao mal de inveja na Bíblia. Nas culturas de origem celta e nas culturas do norte da Europa, o mal de inveja e as respectivas pragas estão associadas a amuletos e rituais próprios. Na base do mau-olhado está a inveja da situação material, da saúde, da beleza, da sorte de alguém, e a superstição associa, desde tempos imemoriais, ao olhar o poder mágico de produzir efeito.

Independentemente da crença, aconselhamos a compra de amuletos. Sugerimos cuidado na escolha porque ultimamente têm aparecido olhos de plástico que nada têm a ver com os verdadeiros e genuínos olhos contra o mau-olhado, que devem ser em vidro nos diferentes tons de azul. A forma irregular é sinal de que o amuleto é feito por artesãos de uma das várias vidrarias turcas.
Mesmo que não acredite, coloque um amuleto na sua mala. Pode ser que diminua a probabilidade de extravio …

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