Melancolias expostas

Inaugurámos no dia 11, na Cinemateca Portuguesa a exposição de fotografia Istambul-Lisboa Roteiros da Melancolia.
Istambul que fotografámos não é a Istambul dos seus habitantes, nem Lisboa de Kahveci é a Lisboa dos lisboetas. São as cidades como nós as sentimos e interpretamos partindo do que reconhecemos de comum que é a melancolia, a nostalgia. Transcrevemos o texto que acompanha a exposição que estará na Cinemateca até ao dia 31 de Março.

Sobre a melancolia das nossas cidades

Foram escritores e poetas que nos reuniram à volta de Istambul e de Lisboa e foi por eles e com eles que partimos à descoberta das cidades que não eram, então, nossas. Encontrámos semelhanças entre elas: os espelhos de água do Bósforo e do Tejo, os portos de partida e de chegada de barcos e navios, as colinas, os vestígios monumentais dos impérios perdidos, o branco dos mármores acinzentado pelo tempo, as casas apalaçadas… Guiados por Pamuk, reconhecemos em Istambul o hüzun, um termo próximo da melancolia: “ um sentimento interiorizado com orgulho e ao mesmo tempo partilhado por toda uma comunidade”.
Não é, portanto, um sentimento individual, não é a melancolia experimentada por uma pessoa, é do hüzun, da melancolia da cidade que se trata.

E foi essa nostalgia da cidade, essa Istambul de Pamuk, tão próxima da Lisboa de Fernando Pessoa que nos aproximou na procura de uma leitura íntima das duas cidades. Nelas, sentimos a melancolia em lugares habitados por pessoas: nos vapur e nos cacilheiros, nas estações de comboio, nas ombreiras das portas e janelas de fachadas decadentes, nos passos apressados de quem vai e vem do trabalho, nos vendedores dos mercados, nas filas de espera dos autocarros…

Parecia-nos que os versos de Rui Miguel Ribeiro sobre Lisboa, poderiam ser também sobre Istambul:
A solidão da tarde inicia o que Lisboa
traz de acantonado promontório
meios rostos em cadência de contra-luz
lonas lancetando o sol nas esplanadas,
amontoados de paredes, janelas e ferros
que descambam até ao Tejo
onde se afogam as vozes da cidade.

Foram os mapas sentimentais das cidades que fomos construindo que favoreceram o encontro das nossas fotografias. Percebemos, então melhor por que razão Asli, personagem de uma obra de Ítalo Calvino, afirma: “Apesar de ser a primeira vez em Lisboa, sinto que já conheço esta rua, sei onde vai dar porque já estou em Istambul”.


Foi a melancolia, o hüzun que procuramos registar nas nossas fotografias a preto e branco. As duas cores e os cinzentos que as medeiam são as que melhor condizem com o sentimento de tristeza, de nostalgia que se pressente nas duas cidades. Concordamos com Ahmet Rasim quando afirma: “A beleza de uma paisagem reside na sua melancolia”.

Istambul é uma cidade bela,
Lisboa é uma cidade bela.

Manuela Matos Monteiro/ João Lafuente/ Mühenna Kahveci

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Um Comentário a “Melancolias expostas”

  1. [...] esta foto a propósito de um “post” sobre a exposição de fotografia, Istambul-Lisboa Roteiros da Melancolia, que se encontra na [...]

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