Arquivo do mês de Agosto, 2010

Um francês apaixonado

Sexta-feira, 27 de Agosto, 2010

Foi já em Istambul que conhecemos uma história de amor associada à cidade: Pierre Loti, pseudónimo do escritor e oficial da marinha francês Julien Viaud, apaixonou-se perdidamente por Aziyade, mulher de um abastado homem de negócios que vivia numa grande casa de madeira numa das ruas de Sultanahamet. Com o apoio de criados de confiança e amigos manteve um escaldante e perigoso romance clandestino. Diz-se que de noite a bela turca de olhos verdes saía de casa para se encontrar com Loti num barco no meio das águas do Bósforo. A novela “Aziyade”, que publicou em 1879, é considerada por muitos uma mistura de romance e de autobiografia.

Mas não foi só pela bela turca que Loti se apaixonou: a cidade tomou-lhe também o coração e Aziyade e Istambul ficarão intimamente ligadas. As colinas, o Bósforo, o recorte das duas partes da cidade nos céus, ora azuis ora cinzentos, o modo e o ritmo da vida, os cheiros e os sabores marcaram a sua vida e as suas memórias até morrer.

Para usufruir de uma paisagem privilegiada alugou uma casa no cimo de uma colina onde todos os dias podia desfrutar dos reflexos dourados do pôr-do-sol no Bósforo. É perto desse local que fica o café Pierre Loti, sem dúvida um dos lugares a não perder em Istambul.

Começámos por entrar na livraria junto ao café e não resistimos a comprar o livro Constantinople escrito em 1890 que começa assim: “É com inquietação e uma grande melancolia que começo este capítulo do livro. Quando pediram para o escrever, quis recusar fazê-lo; mas pareceu-me uma espécie de traição para com a pátria turca – e, por isso, aqui estou.” As sessenta e seis páginas dedicadas a Constantinopola /Istambul interrompidas por imagens da época mostram que a cidade de hoje mantém o ambiente que a torna única.

Loti morreu em 1923 em Hendaia, cidade basca no lado francês. E foi na cidade basca de Bilbao que no início de Agosto encontrámos  no Museu Guggenheim  Pierre Loti pintado por Henri Rousseau. O retrato é enigmático e perturbante, como enigmática e inquieta foi a sua vida.

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A preto e branco

Quinta-feira, 19 de Agosto, 2010

Ozan Sagdic realizou a primeira exposição individual de  fotografia em 1959 e nesse mesmo ano fez uma exposição conjunta com Ara Guler, a referência da fotografia turca.

A sua carreira divide-se entre o fotojornalismo, o trabalho gráfico para revistas e a fotografia como forma de expressão das suas preocupações sociais e inquietações estéticas. Em 1985 foi nomeado “Artista do ano” pelo Art Council.

No âmbito das iniciativas de Istambul Capital Europeia da Cultura pode-se ver, até 3 de Setembro, parte do trabalho de Ozan Sagdic numa exposição de fotografia “Istambul na década de 50” na Fototrek Gallery na İstiklal Street.

Aqui ficam alguns dos seus trabalhos. A preto e branco.

O que dizem de Istambul 3

Terça-feira, 10 de Agosto, 2010

Descem-se as colinas íngremes de Beyoglu, os subúrbios tristes e silenciosos rente às casas de madeira com janelas em sacada, e logo se desemboca na Ponte Galata e na confluência de águas simétricas do Bósforo e do beco do Corno de Oiro, que divide Istambul em duas partes. Um longo mar navegado por vapur e mais um número incontável de embarcações, de navios cisterna a cargueiros escuros e ferrugentos, de fragatas a barcos de passageiros. Através dos prédios, começam logo a divisar-se as silhuetas da cidade velha, paisagem interminável que se espraia da colina do Palácio de Topkapi ao farol da Ponta do Serralho, a célebre “paisagem de Istambul” que enamorou um sem número de pintores impressionistas, como Dufy ou o ilustrador alemão Melling (e o próprio Pamuk, no seu pretérito artístico). Paisagem onde figuram ainda os seis minaretes da mesquita Azul e as “chaminés” de Aya Sophia, a catedral-mesquita, obra-prima bizantina usurpada na sua fé após a queda de Constantinopla nas mãos dos otomanos. É à medida que se desce o olhar (como se descerrassem as cortinas para a soirée) que a cidade nos acontece.

Tiago Salazar, As Rotas do Sonho, 2010