Dervixes

Os espectáculos dervixe, associados directa ou indirectamente às actividades dos “Dias da Cultura Turca”e ao “Festival Pontes para Istambul”, tornaram presente a experiência que vivemos na cidade. É um facto que os dervixes fazem parte do imaginário associado à Turquia: fotografias, filmes e descrições várias criam expectativas e também perguntas a que não é fácil dar resposta. As vestes, o rodopio dos intervenientes, o cerimonial e, sobretudo, o sentido de tudo isto, tornam inevitável o desejo de ver os dervixes a agir num dos espaços de Istambul.

Alinhámos na proposta que então nos foi feita para assistir a uma actuação no Centro Cultural Hodjapasha que fica no sopé da colina de Sultanhamet, próximo da estação Sirkeci. O edifício era, até 1988, um banho turco chamado Hoca Paşa muito frequentado pelos istambulenses. A grande cúpula da sala principal, que aloja 550 espectadores, impressiona logo que se entra e o nosso olhar foi-se perdendo nas paredes de pedra talhada enquanto esperávamos.

Entrou primeiro a orquestra que tradicionalmente acompanha a sema, nome que designa a dança rodopiante dos dervixes. Seguiram-se os dez intervenientes que, em gestos lentos e silenciosos, se prepararam para a dança. Ao iniciar-se a dança-ritual acompanhada pela música densa e cadenciada, percebemos que o rodopio cada vez mais rápido tem um efeito hipnótico que de algum modo nos contagia. O círculo onde os dançarinos se movem, os movimentos rodopiantes sobre um pé, a forma redonda dos chapéus usados e os movimentos das saias simbolizam a perfeição, a busca do diálogo com a divindade, o desejo de paz e plenitude. Durante o ritual a mão direita dirige-se para o alto em busca da bênção divina e a mão esquerda em direcção ao solo simbolizando a dádiva.

Não sabemos se o Centro Cultural Hodjapasha é o melhor espaço para vivermos a experiência associada ao movimento Sufi. Contudo, quando na última noite regressávamos de um espectáculo de jazz, fomos surpreendidos por um som e uma imagem: num pátio de um restaurante sem clientes, um dervixe rodopiava sozinho ao som da música tocada por três executantes. Ficamos quietos, ao longe encostados ao corrimão de uma escada. Roubámos uma só fotografia daquele momento solitário e percebemos que num próximo regresso a Istambul iremos procurar outros sítios onde os rodopios dervixes aconteçam.

Alguns excertos de dança dervixe podem ser vistos AQUI 1 AQUIAQUI3

Breve nota sobre os dervishes

Os Mevlani (dervixes “rodopiantes”) são os seguidores de Mevlana Jelaleddin Rumi que nasceu em 1207 no seio de uma família de teólogos. Fundou a ordem Mevlana Sufi que defendia que a melhor via para se chegar à divindade era através da poesia, da música e da dança. As suas principais concepções estão compiladas numa obra com seis volumes que integra fábulas, versos corânicos, reflexões metafísicas e orientações para a vida quotidiana. Viveu a maior parte da sua vida na cidade de Konya, sendo frequente rodopiar sobre si mesmo nas ruas atingindo, assim, um estado próximo do transe. Depois da sua morte em 1273, os seus seguidores espalharam-se por todo o império otomano difundindo as suas concepções e ritual.

Quando Kemal Ataturk (1881-1938) declara a Turquia uma república laica, os Mevlevi para contornar a sua situação declaram-se uma organização cultural.

Uma das suas características é a aceitação de outros credos e perspectivas bem reflectidas no convite que Rumi faz à participação no sema:

Quem quer que sejas, vem

Mesmo que sejas

Um infiel, um pagão, ou um adorador do fogo

A cerimónia sema foi declarada pela UNESCO obra-prima do Património Oral e Intangível da Humanidade.

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