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A espera no Grande Bazar

Sábado, 30 de Outubro, 2010

Um gato a dormir enroscado sobre si mesmo é uma imagem serena e apaziguadora. Quem tem gatos sabe do que falamos: quietos, redondos e macios, são um convite à serenidade. A sua quietude, sublinhada pelo vaivém da respiração leve, é o sinal do seu bem-estar e do lugar em volta.

Quando entrámos no Grande Bazar esperávamos um lugar agitado, barulhento, com intensos convites à compra. Dobrada a primeira esquina, vimos o primeiro de muitos gatos a dormir confortável sob a luz de ouros cintilantes.

Guiados pela imagem do gato amarelo adormecido, percorremos o Grande Bazar durante horas. Não sabemos o que não vimos porque decidimos perder-nos naquele mercado coberto com mais de 500 anos. Passámos, de certeza, diante de dezenas e dezenas de lojas organizadas por produtos, mas o Bazar tem mais de 3000 lugares onde mais de 20 000 pessoas vendem quase tudo. Ficou quase tudo por ver!

Retivemos as cores, claro, espreitámos de vez em quando as abóbadas e fixámos alguns olhares nos azulejos, recusámos contidos convites à compra., resistimos à curiosidade de explorar as tendas. Confessámos que os nossos olhares estavam contaminados – aliás, como todos os olhares – e fixámos cenas de quietude, de espera. A ler o jornal, a organizar a mercadoria já organizada, ou simplesmente parados, os vendedores estavam à espera.

Reconhecíamos em alguns o huzun, a melancolia de que Pamuk falava sobre a cidade. Foi a procura dessa melancolia que nos guiou no bazar e que nos levou a experimentar uma tranquilidade inesperada.

Este é o verdadeiro Grande Bazar? Desconfiamos que não. Voltaremos, em Dezembro, a Istambul à procura dos muitos bazares que o Grande Bazar tem.