Arquivo do mês de Janeiro, 2011

Por cá, por lá

Sexta-feira, 28 de Janeiro, 2011

São cada vez mais frequentes e significativos os eventos que reflectem uma troca intensa entre Portugal e a Turquia. O facto de Istambul ter sido a Capital Europeia da Cultura e o processo de aproximação à União Europeia explicam parte deste acontecer.
Desta vez falamos de Istambul, da Turquia a partir de várias vozes: de uma exposição de fotografia, da proposta de férias culturais na Turquia, da gastronomia turca no seu melhor no Porto e em Lisboa e de um grupo do facebook. É este menu variado que passamos a apresentar. Comecemos pela mesa!

O Ocidente e o Oriente à mesa

No âmbito da 3ª Conferência Internacional de Enoturismo que decorrerá no Porto de 31 Janeiro a 3 Fevereiro, as gastronomias portuguesa e turca vão encontrar-se e procurar explorar os sabores do Ocidente e do Oriente. Dois chefes representam Portugal: Albano Lourenço (Restaurante Boca do Lobo do Hotel Infante Sagres – dia 2 e 3 de Fevereiro, jantar) e Joachim Koerper (Restaurante Eleven – dia 5 e 7 almoço e jantar).

De Istambul vem o célebre chefe Musa Dagdeviren que à mesa do restaurante “Çiya” inova a gastronomia turca recuperando receitas e modos de cozinhar há muito perdidos no tempo. É por isso, que o New Yorker titula um artigo que lhe dedica, The Memory Kitchen.


Este chefe defende uma opinião que há muito partilhamos: a gastronomia mais saborosa é a cozinhada pelas classes sociais com mais dificuldades económicas porque é preciso muito empenho e imaginação para transformar alimentos “mais pobres” em deliciosas refeições. Musa afirma que as pessoas com menor poder de compra investem na comida, “criam com alma e beleza interior”.

Vamos tentar acompanhar a vinda de Musa Dagdeviren a Portugal e dar notícias. Esperamos que aos temperos das gastronomias turca e portuguesa se juntem os temperos dos afectos e das emoções. Afinal, o que se come e como se come diz muito sobre os povos e as suas culturas.

Férias culturais na Turquia

Foi no âmbito da capital Europeia da Cultura que a Associação de Amizade Luso – Turca organizou o “Encontro de Verão Turquia-Portugal 2010″. A ideia é proporcionar outra vez um Verão multicultural em que os participantes desenvolvam um conjunto diversificado de actividades: cursos de língua turca (níveis básico e intermédio leccionados na Universidade de Fatih), workshops artísticos (música com Ney, pintura Ebru, caligrafia, decoração Tezhip), visitas aos principais centros histórico-culturais de Istambul e de outras cidades, degustação das tradicionais ementas turcas, etc.

É Associação de Amizade Luso-Turca que assegura a marcação do alojamento, do transporte no interior da Turquia, dos cursos e das visitas guiadas. A marcação da viagem de ida e volta fica a cargo dos participantes, mas há preços especiais pela Turkish Airlines que tem uma parceria com a Associação.
Informações sobre preços e outras condições podem ser obtidas directamente na sede da Associação de Lisboa (213012064) ou do Porto (226103917) ou através do email info@turquiaportugal.com .
As vagas para este programa de Verão são limitadas.

Istambul em Lisboa

Inaugura no dia 5 de Fevereiro, às 16:00, a exposição colectiva de fotografia “Istambul” com a participação de: Sonja Valentina, Teresa Lamas Serra, Dália Diegues, Filipe Mota Rebelo e Orlando Rebelo. No dia 5, cinco fotógrafos expõem cinco formas diferentes de ver e viver Istambul.
De comum, têm o mesmo deslumbramento pela cidade que se divide nos dois continentes. Aqui ficam dois dos trabalhos, um de Teresa Lamas Serra, o outro de Orlando Rebelo.

Para verem mais olhares destes e dos outros fotógrafos têm um mês. Parte de Istambul, morará nas paredes da Associação de Amizade Luso-Turca, na Avenida da República 49 2º, em Lisboa.

Lá & Cá no facebook

Criámos há alguns meses no facebook o grupo Lá & Cá Turquia & Portugal que conta já com mais de 400 membros. É um grupo que se define assim: “Este é um espaço onde se possam partilhar impressões, experiências, fotografias e textos sobre a cidade de Istambul e sobre a Turquia. A viagem que se fez ou se deseja fazer a este lugar do mundo é um bom estímulo para a colaboração.”

Tem sido muito motivadora a troca de informações que se faz directamente nos posts do grupo e nas mensagens. Tem sido bom saber que esse espaço contribui também para levar mais pessoas a conhecer a cidade e o país. Aqui fica a informação e o convite para que viajantes e andarilhos que gostam de Istambul e da Turquia coloquem as suas imagens e registem as suas impressões.
O Lá & Cá mora AQUI.

E se tivesse ardido?

Quinta-feira, 20 de Janeiro, 2011

A estação de Haydarpaşa, que fica no lado asiático da cidade, é um sítio que não se pode perder. Mas só fomos visitá-la no último dia por pressão de um turista vienense que encontrámos durante a visita à pequena Hagia Sophia. O ambiente do lugar levara-o a fazer-se à conversa porque as impressões fortes por vezes têm de ser partilhadas. Já no exterior, falámos das experiências em Istambul e por coincidência, partíamos no mesmo dia, ao fim da tarde. Dessa troca, achámos imperdoável que ele não tivesse subido até ao café Pierre Loti (ver o post de Setembro “O café Pierre Loti”); ele considerava que partir da cidade sem visitar a estação de Haydarpaşa era igualmente imperdoável.

A manhã ainda estava a começar e, por isso, prometemos não partir sem atravessar o Bósforo e procurar a estação. E foi assim, que apanhámos um ferry e deixámos a Europa rumo à Anatólia. A aproximação progressiva ao lugar aumentava a curiosidade pelo edifício que data de 1909 e que assenta em 1100 pilares de madeira com 21 metros cada um. Quando o ferry se aproximou avaliámos os efeitos do incêndio de 28 de Novembro do ano passado devido a um descuido durante as obras de recuperação que felizmente, só danificou os telhados das duas torres e o último piso. Naquele momento não pudemos deixar de pensar: e se tivesse ardido?

A estação de Haydarpaşa é uma obra de arquitectura imponente com uma estrutura neo-clássica da autoria de Otto Ritter e Helmut Conu. À primeira vista parece um grande e pesado castelo com duas torres mas a amplidão da mancha de água do Bósforo dá-lhe equilíbrio e leveza. As paredes de pedra lavrada são iluminadas pelos reflexos da água e pela luz do céu que se reflecte nos vidros das janelas e nos vitrais.

Quis o acaso que, no aeroporto, reencontrássemos o nosso turista vienense: ele tinha subido até ao Café Pierre Loti e agradeceu efusivamente o conselho pela experiência excepcional que viveu no topo da colina dos mortos. Nós, retribuímos-lhe o agradecimento e, como se costuma dizer pelas nossas bandas: ficámos quites!

Propomos, agora, uma visita breve através das nossas fotografias a uma parte do interior da estação de Haydarpaşa. Ficamos com vontade de voltar não só para rever com mais tempo o lugar mas partir em cómodos comboios para várias cidades da Turquia e, porque não, para outras paragens do Médio Oriente.

NOTA – A imponência e localização do edifício explicam a sua escolha para a produção de um extraordinário trabalho de mapping em 3D que inaugurou, há um ano, Istambul como a Capital Europeia da Cultura. Sugerimos vivamente o seu visionamento AQUI porque usufruem de uma experiência visual fantástica.

Beringelas, figos, conversas e

Sábado, 8 de Janeiro, 2011

Eveline Zoutendijk é uma holandesa com um percurso de vida muito peculiar. Tirou o Grande Diploma de chefe de cozinha no Le Cordon Bleu de Paris e integrou uma equipa de dezasseis homens na cozinha de um restaurante com estrelas Michelin, na Holanda. Trabalhou no Hotel St. Regis, em Nova Iorque e “abriu” o Four Seasons George V, em Paris. Em 1997, decide viajar pelo mundo e, em Maio desse ano, a Turquia causa-lhe um forte impressão.
Dois anos depois, toma uma decisão radical: mudar-se para Istambul e aí reorganizar a sua vida. Depois de várias experiências, decide abrir um espaço próprio – Cooking Alaturca – onde, para além de um restaurante, dá aulas de cozinha otomana.

Descobrimos este lugar no Google, quando procurávamos aulas de culinária turca. Consideramos que a gastronomia é uma das mais fortes manifestações da cultura de um povo e as experiências que já tínhamos tido noutras viagens mostraram que as aulas de culinária misturam os ingredientes prescritos nas receitas com a História do país.
Às 16:00 apresentaram-se os candidatos a aprendizes de feiticeiro na aventura da gastronomia otomana: dois jovens casais australianos e dois canadianos (pai e filho).
Eveline avisa que vamos ter que “meter a mão na massa” e, por isso, há que pôr aventais. O chefe turco Feysi, apesar do inglês elementar, fazia-se entender através de gestos eficazes. Os dois conseguiram que o grupo se organizasse e ao longo de duas horas preparámos cinco pratos.

Para além de uma deliciosa sopa de lentilhas vermelhas e bulgur com menta seca e pimento vermelho, preparámos uma entrada com espinafres e queijo a que se seguiu a perna de borrego abraseada e estufada com legumes e com um acompanhamento muito especial e que já reproduzimos várias vezes desde que chegámos: beringela fumada.

Merece, por isso, uma atenção especial: pega-se na beringela e coloca-se directamente sobre o fogo (na chama do fogão a gás ou no braseiro do churrasco) A beringela está pronta quando a pele se apresenta tostada e que se retira facilmente pegando pelo pé com a ajuda de uma faca. Corta-se aos pedacinhos e esmaga-se em puré com um garfo. Envolve-se com um pouco de molho bechamel e assim fica pronto um acompanhamento delicioso e com um sabor único. Se em Portugal se diz que há mais de 1000 maneiras de se cozinhar bacalhau os turcos utilizam a mesma expressão para a beringela. A fumada é uma das nossas preferidas.

Depois de tudo preparado fomos para a mesa onde se misturaram os cheiros das especiarias, os sabores surpreendentes, as experiências vividas em Istambul com histórias de vida tão diferentes mas tão parecidas no gosto pela boa culinária e pelo prazer de viver a cidade.

À sobremesa comemos figos recheados com nozes que fizemos estagiar numa calda de açúcar, água, um gomo de limão e cravinhos. Terminámos a refeição com um café turco que Feysi fez questão que preparássemos.

No fim, despedimo-nos; nós e os outros aprendizes, percebemos que seria difícil voltarmo-nos a encontrar. Mas talvez no Canadá e na Austrália a beringela fumada, a sopa de lentilhas, o borrego estufado ou os figos tenham trazido à memória as horas em que juntos partilhámos os sabores da cozinha otomana.

NOTA
O preço da sessão e do jantar é de cerca de 60€ por pessoa.
Localização – Akbiyik Caddesi 72ª, em Sultanahmet
Site – http://www.cookingalaturka.com/

Brilhos e cores

Sábado, 1 de Janeiro, 2011

Para começar o ano, nada melhor do que falarmos dos brilhos e das cores de Istambul. Não os brilhos e as cores dos mosaicos e das pinturas no interior das mesquitas ou das imagens dos livros com centenas de anos; não os brilhos e as cores que o pôr-do-sol empresta à cidade, nem os brilhos e as cores das romãs e das laranjas abertas, prontas para serem transformadas em sumo.

São os fios, as contas, os tecidos, as luminárias, as franjas que dirão os rosados acinzentados, os vermelhos fortes, os roxos profundos, os laranjas quentes, os verdes vibrantes …

Sem palavras, ficam as imagens de alguns brilhos e cores em Istambul.

A seguir há mais …

(mais…)