Arquivo do mês de Dezembro, 2010

Fomos à procura do que não existia …

Quarta-feira, 29 de Dezembro, 2010

Foi isso que aconteceu: fomos à procura do que não existia e encontrámos/não encontrámos. Antes de regressarmos a Istambul, lemos o Museu da Inocência de Pamuk. Na página 15 o Nobel da Literatura turco dá-nos todas as indicações para encontrarmos o museu, incluindo um mapa.

O Museu da Inocência (Masumiyet Muzesi) seria um lugar especial que guardaria todos os objectos recolhidos por Kemal, testemunhos da desmedida paixão por Fusun. A história, passada entre Maio de 1975 e os últimos anos do século XX, conta-se rapidamente, sem que isso retire qualquer interesse a futuros leitores: Kemal é um jovem empresário filho de uma família abastada, frequenta os meios burgueses de Istambul e está noivo de Sibel, uma turca moderna que conhece bem a Europa. Passa parte do Verão numa casa nas margens do Bósforo (yalis) e com os seus amigos partilha uma admiração pelo modo de viver europeu. Perde-se – literalmente perde-se – de amores por uma prima afastada que é empregada de balcão.

Esta paixão obsessiva leva-o a recolher objectos que Fusun tocou ou usou e que ele guarda: beatas (mais de 4 000), travessões, brincos, lenços, sapatos, bilhetes de cinema e de autocarro, copos usados por ela. Com estes objectos decide preservar a sua paixão num museu, o que o leva a visitar 1743 museus do mundo para usar a metodologia mais adequada à sua constituição.

Pegámos no mapa e fomos à procura do museu que fora instalado na última residência de Fusun, na zona asiática de Istambul:
“A casa onde a família de Fusun, os Keskins, vivia ficava na esquina da Avenida de Çukurcuma (vulgarmente conhecida por “colina de Çukurcuma”) e da vereda conhecida por “Rua Dalgiç”. Como podem ver pelo mapa, uma caminhada de dez minutos separava as ruas sinuosas e inclinadas daquela zona de Beyoglu e da Avenida Istiklal”. (p. 358).

A descrição do percurso e o mapa incluído no livro levaram-nos facilmente ao local. Passámos pelo Hamman (banhos turcos) por onde Kemal tantas vezes passou para ver Fusun.

Na esquina da Avenida Çukurcuma com a Rua Dalgiç lá estava uma casa vermelha de três pisos que se destacava de todas as outras porque era evidente ter sido recentemente restaurada. A casa parecia vazia à espera do recheio. Em lugar algum havia qualquer sinal que indicasse ser ali o espaço onde Pamuk irá preservar a cidade das últimas décadas do século XX: postais, roupa interior, chávenas e tantos outros objectos de uso diário recolhidos pelo escritor ao longo dos anos.

Nas suas palavras, “Quero que o meu museu seja o museu da cidade, que inclua tudo, desde mapas das ruas, a fechaduras, a maçanetas de portas, passando por telefones públicos e o som das sirenes de nevoeiro”. Afinal, “documentos de uma Istambul que já não existe e um olhar poético ao passado da cidade através dos olhos de um apaixonado”, “Quero encher [o museu] modestamente com as coisas que fazem a cidade, que fazem qualquer cidade”.

As 639 páginas do romance são, assim, muito mais do que a história de um amor desmesurado de um homem por uma mulher: são antes de tudo a manifestação do amor por Istambul e o desejo de preservar a memória de uma cidade, de um tempo marcado pela nostalgia, pelo huzun.

A inauguração do museu está programada para 2011, um lugar entre a ficção e a realidade, um lugar que encontrámos/não encontrámos. Temos de voltar quando o Museu da Inocência abrir e mostrar a página 626 do livro onde está um bilhete que dá direito a uma entrada individual num lugar onde parte da memória sentimental de Pamuk reside.

E as mesquitas?

Quarta-feira, 15 de Dezembro, 2010

Impossível falar de Istambul sem falar nas mesquitas. Não fazemos ideia de quantas existem na cidade, mas quando os muezin chamam para a oração, imaginamos centenas de minaretes de onde partem os apelos. Não conseguimos distinguir os sons originais dos respectivos ecos e, assim, continuamos sem saber quantas mesquitas Istambul tem. Visitámos alguns destes lugares onde os passos humanos não se ouvem porque os pés descalços sobre os tapetes não dão sinais, nem deixam pegadas.

Deixemos as mesquitas imperiais para outra altura porque a “Pequena Hagia Sofia” (Küçuk Ayasofya Camii) revelou-se um lugar particularmente especial: originalmente foi uma igreja ortodoxa – a Igreja de S. Sérgio e S. Baco – que foi transformada em mesquita durante o império otomano no século XVI. Da original construção (527-536) restam as inscrições gregas que perpetuam os nomes de Justiniano, da sua mulher Teodora e de S. Sérgio, patrono dos soldados romanos

Nesta mesquita que fica a cerca de 15 minutos da grande Mesquita Azul e de Hagia Sofia e a pouca distância do mar de Mármara o que nos impressionou foi o silêncio, a serenidade, a cor, o cruzamento de linhas e arcos e o jogo de luzes e sombras.

Pelas grades de uma janela, vislumbrámos um pequeno cemitério muçulmano. É aí que se encontra o túmulo do fundador da mesquita, Hüseyin Ağa.

Perdemo-nos na nave central a olhar o tecto e as galerias e a apreciar as luminárias e os azulejos. Mas acabámos presos por recantos, aberturas nas paredes, degraus gastos por tanto uso, pormenores dos rendilhados em pedra e até por um rosário pousado no chão.

Antes de sairmos, cumprimentámos com um breve aceno de cabeça o íman, a única pessoa presente enquanto estivemos na mesquita.

No exterior da mesquita há um pequeno jardim com uma fonte para as abluções e várias pequenas lojas. Algumas fotografias e breves comentários mostram alguns espaços e elementos da mesquita que foi outrora um dos mais importantes centros do império otomano.
A ver já a seguir.

(mais…)

No Nardis

Sábado, 4 de Dezembro, 2010

A ideia era voltar ao Nardis Jazz Club independentemente de quem estivesse a tocar. Subir a ladeira íngreme que leva à Torre Gálata e partilhar música naquele espaço parecia um bom programa para a noite.

Em cena, Benny Lackner Trio que esteve há poucos meses no Hot Clube em Lisboa. O pianista, que vai mudando de formação, apresentou-se com Mathieu Chazarenc na bateria e Phil Donkin no baixo , portanto, um alemão, um francês e um norte-americano num palco turco. Apesar de termos ido com três horas de antecedência para reservar mesa, só conseguimos lugar no “balcão” do clube-bar. Percebemos que éramos os únicos estrangeiros numa sala cheia.

A localização não escolhida revelou-se uma vantagem: o som subiu limpo até ao primeiro andar, e foi bom acompanhar os músicos numa perspectiva pouco comum. Visto de cima, o piano lembrou que é um instrumento de cordas.


Para recordar ou conhecer a música tocada pelas diferentes formações deste pianista ver e ouvir AQUI

De volta a Istambul

Quinta-feira, 2 de Dezembro, 2010

Chegámos ontem dia 1 ao fim da tarde e fomos surpreendidos com uma inesperada temperatura de cerca de 20º. A saída do aeroporto foi rápida mas a viagem até ao pequeno hotel na zona de Sultanahmet demorou mais de 30 min.O trânsito do aeroporto até ao centro é intenso e quase caótico. Chegados ao hotel, decidimos pousar as malas e satisfazer um desejo adiado: comer peixe frito num dos restaurantes da Ponte Gálata.

Atravessámos a ponte, como de costume, estava com a lotação de pescadores quase esgotada: dos dois lados, dezenas de canas de pesca eram observadas com atenção. O mais pequeno movimento provocava o sobressalto do proprietário e dos pescadores vizinhos, sempre em actividade constante: pôr isco, mudar chumbeiras, rematar fio, ajeitar o peixe pescado.

Descemos para a parte inferior da ponte onde restaurantes de peixe se alinham. Resistimos aos apelos dos que em turco parece que nos ofereciam peixe fresco a bom preço. Escolhemos o “Fish Point” pelo nome, por ser o último restaurante de uma das bandas e, sobretudo, por ter só clientes turcos. Pedimos peixe frito em pão. O empregado não escondeu a sua decepção: afinal, seria de esperar de turistas europeus mais arrojo.

Em poucos minutos chegou um pão aberto com o peixe à espreita acompanhado por uns farrapinhos de alface a dar o ar da sua graça. Como achamos que, quando comemos, comemos também o que está à volta, podemos dizer que o cenário assegurou um repasto de luxo: as mesquitas iluminadas por entre as casas, os vapur a navegar silenciosamente sobre o som das ondas do Bósforo … A cavala frita soube a divina iguaria.

Achamos que a noite não podia acabar ali: fomos à procura das doces baclava na rua Isketlal que, às 11 horas da noite, estava cheia de gente. Para finalizar em beleza, fomos beber um chá de maçã ao Café Ara, propriedade do grande fotógrafo Ara Guler. Numa das paredes estava uma das suas fotografias da Ponte Gálata com mais de 30 anos. Reconhecemo-la tal qual. Um dia destes, voltaremos com mais tempo à ponte e ao café.