Istambul em Barcelos

18 de Julho, 2011

Durante um mês, a cidade de Barcelos é atravessada por um conjunto de realizações que enquadram o projecto itinerante “A poesia fílmica e as artes plásticas”. Exposições, tertúlias, sessões de cinema-concerto, representações teatrais, apresentações de livros são algumas das manifestações deste projecto. Nesta primeira passagem, a Turquia é o país convidado.

É neste contexto que Istambul estará em Barcelos com a exposição Istambul, Roteiro da Melancolia. Acontece na Biblioteca Municipal com a inauguração no dia 20 pelas 18:00. Poderá ser visitada até ao dia 12.

 

À noite, no cemitério

11 de Julho, 2011

Os cemitérios são sítios muito especiais mas os de Istambul ainda são mais especiais! (ver post sobre o tema AQUI)

Numa noite, de regresso ao hotel pela rua Divan Yolu reparámos que os portões de entrada do cemitério estavam abertos. Subimos as escadas e preparávamo-nos para tirar uma furtiva fotografia quando percebemos que várias pessoas passeavam lá dentro. Entrámos e na noite morna fizemos o mesmo que os outros: deambulámos entre os túmulos e as árvores.

O ambiente marcado pelo efeito da cor amarelada das luzes nos mármores e das sombras das folhas nas paredes e nas colunas impressionou-nos. Partilhamos aqui o passeio de uma noite, num cemitério em Istambul.

A ler jornais

29 de Junho, 2011

Não é método de avaliação de um comportamento social deduzir a partir do que vemos uma regularidade. Se assim fosse, diríamos que os turcos lêem muito, pelo menos, lêem muito jornais: às portas das lojas, nos jardins, nas bancas dos bazares, nos cafés, nos mercados de rua vemos turcos embrenhados na leitura de jornais enquanto esperam clientes, no intervalo do almoço, quando esperam pelo transporte, enquanto viajam nos ferries.

Muhenna Kahveci, fotojornalista que connosco organizou a exposição Istambul, Lisboa – Roteiros da Melancolia (ver post “Melancolias expostas” em Feveereiro 2011) proporcionou-nos uma visita ao jornal onde desenvolve a sua actividade, o jornal Zaman que este ano comemora 25 anos de existência. Confessamos a nossa surpresa ao depararmo-nos com um edifício moderno de oito andares, com uma arquitectura que um museu de arte contemporânea de qualquer parte do mundo não desdenharia.


Em seis andares, trabalham 14 fotojornalistas e 80 jornalistas (50% são mulheres). Cerca de 600 pessoas estão envolvidas na coordenação editorial, nas outras fases da edição, na ilustração e design, na gestão dos recursos humanos, na área comercial e administrativa. (cerca de 40% são mulheres).
São publicadas duas edições, uma de manhã e outra ao início da tarde, saindo para as ruas um total de 5 milhões de exemplares do Zaman.

Visitámos o centro de impressão no edifício que produz 250 000 cópias diárias dirigidas para a cidade de Istambul e zonas vizinhas. Para além deste centro de impressão, há mais cinco noutras cidades turcas que imprimem jornais que integram as realidades regionais. Para além do jornal, o grupo publica livros, sobretudo de política e de ficção. A ciência e a cultura são menos populares.


Há uma edição em inglês, Today’s Zaman, com uma tiragem de perto de 7000 exemplares. A edição do jornal on line – Today’s Zaman – é sobretudo muito lida no estrangeiro podendo ser consultada AQUI

A visita a este jornal que ocupa uma posição cimeira na imprensa escrita turca e o conhecimento da tiragem de muitos jornais que se publicam na Turquia reforçou a nossa impressão inicial. Mas vamos procurar mais informação para fundamentar a afirmação: os turcos lêem muito jornais!

Istambul dá-nos música!

16 de Junho, 2011

A quantidade de festivais de música e a diversidade das suas expressões tornam Istambul uma das capitais da música nos meses de Junho e Julho. De entre as várias propostas destacamos apenas três: o Festival Internacional de Música de Istambul, o Festival Internacional de Tango e o Festival Internacional de Jazz. Mas há mais, muito mais. Decididamente: Istambul dá-nos música!

Festival Internacional de Música de Istambul


Os amantes da música clássica reconhecem a importância deste festival que se realiza desde 1973, organizado pela Fundação de Istambul para a Cultura e Artes. Ao longo dos 39 anos passaram pelos palcos de Istambul as mais famosas orquestras de todo o mundo.
Este ano, estão envolvidos mais de 500 artistas numa edição que decorre de 4 a 29 de Junho em vários locais: teatros, museus, mesquitas e também no Palácio Topkapi. O programa pode ser consultado AQUI

Festival Internacional de Tango

Já vai na 8ª edição o Festival Internacional de Tango de Istambul. Este ano, duas orquestras e seis DJs animarão sessões e milongas entre os dias 6 e 10 de Julho.
O filme de promoção que pode ver AQUI combina imagens da cidade com os arrebatados passos da dança sul-americana. “Let’s dance where the civilisations dance” é o slogan do festival.

Festival Internacional de Jazz

Este ano o festival começa com um tributo a Miles Davis por um quinteto que envolve verdadeiras lendas do jazz: Herbie Hancock no piano, Wayne Shorter no saxofone, Marcus Miller, Sean Jones no trompete e Sean Rickman na bateria.
Ao longo de quase 20 dias – de 1 a 19 de Julho – desfilarão pelos vários palcos desde as expressões mais clássicas do jazz aos projectos mais inovadores. No último dia é a vez de Paul Simon que canta pela primeira vez em Istambul. Para além dos êxitos mais conhecidos da sua carreira, com certeza que se ouvirão músicas do álbum So Beautiful or So What editado na Primavera.

O programa do festival pode ser consultado AQUI

Chapéus há muitos!

6 de Junho, 2011

O artista no filme “A Canção de Lisboa” gritava: Chapéus há muitos! … mas em Istambul há mais e mais bonitos.

Num passeio nocturno ficámos pasmados ao ver no interior de uma loja uma enorme parede coberta de espantosos chapéus: o feltro de todas as cores transformava-se nas mais extraordinárias formas que convocavam criaturas como o polvo, o gato, flores, cogumelos e também formas mecânicas, e duendes e estrelas e …

Foi em 1996 que Seref Ozen e Mustafa Gokhan Demir decidiram alargar o âmbito do seu negócio tradicional – tapetes e tecidos da Ásia Central, do Irão e da Anatólia – e avançaram na área do design e da moda.

Inspirados nos chapéus otomanos, desenvolveram uma versão moderna e ousada propondo aos feltros coloridos formas e feitios novos e arrojados. Para além da loja no Arasta Bazar (nº 93), têm uma pequeno espaço no Grande Bazar (Halicilar Cad # 38 ) que valem bem uma visita.


O feltro é um dos mais antigos tecidos produzidos pela humanidade (pensa-se que terá mais de 8 000 anos) e que, para além da resistente e óptimo conservador de calor, tem a vantagem de não desfiar quando cortado. É com este material que, permitindo tintos de vários matizes, para além dos chapéus se produzem artesanalmente carteiras, pulseiras, colares, brincos, alfinetes e até enfeites para árvores de Natal e outras alegrias.

Não resistimos e, para além de pequenas prendas para amigos, trouxemos um chapéu. Confessamos que não tivemos coragem de o usar na cabeça, mas numa estante brilha como objecto decorativo. Chapéus há muitos mas este é sem dúvida um dos mais bonitos.

Por debaixo da terra

24 de Maio, 2011

Um dos projectos mais desafiantes ao nível da engenharia é o projecto Marmaray (combinação das palavras Marmara e ray que em turco significa comboio). Este projecto que teve início em 2004 assegurará o transporte ininterrupto de 1 milhão de pessoas por dia, cobrindo 78 km de distância e unindo por debaixo da terra a Europa e a Ásia. O Bósforo será atravessado por um túnel de 14 km à prova de terramotos. No total, estão previstas 14 estações entre Halkali no lado europeu e Gebze no lado asiático.

Numa primeira previsão, a rede estaria pronta em 2012 mas os achados arqueológicos obrigam a constantes paragens. Entre as extraordinárias peças já encontradas contam-se ânforas, artefactos ligados a profissões e à vida quotidiana, esculturas e uma saca com nove crânios humanos que datarão de 6000 a.C. As escavações deram à luz o maior achado náutico do mundo dando a conhecer a primeira armada bizantina. A descoberta mais perturbante é a do Porto de Teodósio, o maior porto da cidade que teria sido submerso por um tsunami. De entre os vários navios recuperados de diferentes épocas históricas, destaca-se uma galera do início da Idade Média, peça única em todo o mundo.
Sugerimos o visionamento do documentário da National Geographic (4:47) onde se podem ver alguns trabalhos, alguns achados e imagens de Istambul. Entrar AQUI.

Café Kafka

14 de Maio, 2011

Gostamos muito de cafés. Na nossa cidade, privamos com os mais aconchegados, geralmente os mais antigos. Em viagem, os cafés fazem parte das nossas experiências mais sentidas: são os lugares onde vemos a vida a passar, onde esticamos mapas para ver onde estamos e para onde vamos, onde revemos os momentos mais fortes do dia, onde espreitamos as fotografias. É nos cafés que folheamos os jornais do país, onde lemos pedaços de livros que viajam connosco, onde sentimos saudades do “café café” português.


Foi por acaso que encontrámos o café Kafka, ao ler uma tabuleta num início de noite. Duvidaríamos da sua existência não fora vermos clientes sentados na varanda. Foi com alguma hesitação que entrámos numa porta indistinta e subimos umas escadas estreitas como se de uma habitação qualquer se tratasse. Aberta a porta, encontrámos na penumbra um espaço surpreendente: salas de tamanho médio mobiladas com sofás antigos, móveis de época, espelhos lapidados de toucador, apliques de seda … Nas mesas e cadeiras de diferentes formatos estavam sobretudo jovens que liam ou teclavam nos seus computadores.

Pedimos dois cafés e cuidámos com prudência para não bebermos o pó, a borra que descansa no fundo da turca chávena. No dia anterior, o entusiasmo da conversa e o hábito de beber tudo cobriu-nos os dentes de pasta de café amarga; dois copos de água limparam mal o sorriso preto acastanhado!
A música de fundo era um jazz swingado que não interferia nas conversas sussurradas e fizemos questão de saborear e fotografar discretamente a calma e a beleza do lugar.

Por corredores estreitos encontrámos a escada para o piso de cima. As salas eram semelhantes, com a decoração a lembrar a década de 20. Alguns solitários liam o jornal, uma família conversava baixinho e quando nos aproximámos de uma varanda para fotografar a rua, um dos jovens de uma mesa meteu conversa. Era emigrante na Alemanha e já tinha visitado Lisboa. Dos clichés de turista apressado, passou a fazer perguntas sobre a nossa experiência em Istambul e deu sugestões. Traduzia a nossa conversa para os amigos que não falavam inglês e que iam devolvendo sorrisos como resposta.

Como já ia ficando tarde, saímos com a certeza de voltar. Não sabemos quantos cafés no mundo usam o nome de Kafka. Recordámos com sobressalto “A Metamorfose”. Deixámos o pesadelo de Gregor Samsa transformado num monstruoso insecto. Preferimos àquela hora pensar que seria um bom projecto desenhar um roteiro de viagem para visitar todos os cafés Kafka do mundo. Contentes com a ideia, fomos para o hotel dormir.

Café Kafka
Yeni Çarşı Caddesi 10, Istanbul

Tulipas estremecidas

6 de Maio, 2011


Julgámos, desde sempre, que as tulipas eram holandesas mas a história testemunha que o seu cultivo se iniciou no império otomano. Produzir tulipas era uma actividade cara reservada aos mais ricos e poderosos e muito estimulada pelos sultões e grandes vizires. A presença das tulipas ficou registada em azulejos e nas decorações de livros, tecidos, jóias e é um tema recorrente na pintura tradicional ebru.


As primeiras tulipas teriam chegado a Istambul antes do século XV vindas da Turquia oriental e do Irão; consta que foram levadas para a Holanda no século XVII. Hoje, Istambul reclama ser a capital das tulipas e, desde, 2006 que a municipalidade organiza um festival dedicado a estas flores. Em Abril, cerca de três milhões de tulipas cobrem os jardins, parques e avenidas o que leva a quem visitou Istambul em Abril/Maio falar em “rios e mantas de cor” …


Um amigo, que sabe que temos pena de nunca termos estado em Istambul durante este período do ano, trouxe-nos três tulipas numa caixa. Acompanhámos o cor-de-rosa a mudar, a murchar. Estremecidas, as tulipas resistiram durante alguns dias fora do seu sítio. Achamos que as deveríamos ver no seu lugar, em Istambul. Porque não em Abril do próximo ano? Porque não?

Ler o resto desta entrada

Santa Sabedoria

25 de Abril, 2011

Hagia Sophia/ Santa Sabedoria é um lugar com tantos lugares e tantos tempos que não chega uma visita. É actualmente um museu mas funcionou como igreja durante 916 anos e 481 como mesquita.
Não faz sentido fazermos a história do monumento: um guia sobre Istambul, publicações especializadas ou consultas na internet, cumprirão bem esse papel. São as sensações, as emoções, os sentimentos que o lugar nos provocou que queremos partilhar. Visitámo-la três vezes e só nos apropriámos de parte daquele espaço e de parte do seu espírito.

O impacto começa logo à entrada da porta imperial que nos abre um jogo de abóbadas, colunas, arcos por entre os quais se vislumbra o ouro dos ícones: a virgem Maria e o menino, imperadores, imperatrizes, o arcanjo Gabriel… Vertigem é o termo que se pode dizer da sensação que se experimenta quando no centro do monumento olhamos para cima. Respirar fundo será a melhor forma de resistir ao sufoco das alturas, ao impacto da arquitectura, ao olhar fixo das figuras.

Na última visita, detivemo-nos a explorar outros modos de ver Hagia Sophia deambulando pelas naves laterais, percorrendo as galerias superiores. A rampa de acesso é feita de pedras ocres polidas por milhões de passos. Este caminho, iluminado por pequenas janelas, dá-nos a dimensão do tempo e de uma parte significativa da história da humanidade.


Nos átrios das galerias superiores, o olhar é requisitado pelos mármores do chão em que as fissuras feitas pelo tempo escrevem histórias que não conseguimos adivinhar. É das galerias que se abordam de outro modo as colunas, as cúpulas, os painéis, as luminárias.

São os sítios menos visitados, os ângulos mais escondidos, que nos permitem uma aproximação mais íntima ao lugar afastando-nos das imagens e dos conteúdos das reportagens escritas em todas as línguas.
Percebemos que três visitas não chegam para explorar Hagia Sophia.
Manda a sabedoria, mesmo a que não é santa, que regressemos um dia destes.

Mosaicos de vida

16 de Abril, 2011

Por não usarmos guias de viagem de forma regular, descobrimos lugares pouco visitados, perdemo-nos ganhando novos sítios, mas muitas vezes falhamos espaços e acontecimentos.
Foi o que se passou com o Museu do Mosaico nas nossas primeiras visitas à cidade. Como acontece com tantas preciosidades de Istambul que mal se fazem notar, passámos várias vezes sem identificarmos ao Museu do Mosaico do Grande Palácio que fica “dentro” do Arasta Bazar, a sul da Mesquita Azul.

Vale a pena uma visita ao museu que foi construído para albergar os mosaicos em bom estado do Grande Palácio do Império Bizantino e que datam de 450 a 500 AC. Nas cenas representadas, estão ausentes os temas religiosos, sendo a natureza, a vida do dia a dia, o que as pedrinhas coloridas testemunham: uma criança que guia gansos, um leão a atacar um elefante, um homem a ordenhar uma cabra, um caçador a matar um tigre, um urso a comer uma maçã, um camelo a transportar crianças, etc. Às vezes parece que estamos perante pinturas a óleo.

As obras de reconstrução do museu terminaram em 1997, sendo um lugar que merece bem uma visita.

O Museu do Mosaico está aberto todos os dias, excepto à 2ª feira, das 09:30 -17:00.