Arquivo do mês de Setembro, 2010

Noite em Istambul 1

Quarta-feira, 29 de Setembro, 2010

Istambul tem muitas noites como as outras cidades e andar sem destino é um dos nossos programas nocturnos preferidos. Um dos percursos de que gostámos muito foi o que fizemos na primeira noite: a descida da Torre Galata até ao nosso hotel na zona de Sultanahmet onde moram a Mesquita Azul e Hagia Sofia.

As casas de madeira manchadas pelo tempo e pela luz amarelada dos candeeiros davam um ar irreal às vielas. Cruzamo-nos com pouca gente nas ruas estreitas sem automóveis até chegarmos à ponte Galata. Aí, como acontece ao longo do dia, a actividade é intensa: os pescadores não sossegam a armar os anzóis com o isco, a reparar o equipamento a ajeitar a posição das canas na esperança de peixe fácil.

Mas foi em  Sultanahmet que nos perdemos nas horas a percorrer ruelas com os minaretes das mesquitas a espreitarem por entre os telhados. Apesar do silêncio da rua que permitia ouvir os nossos passos, apercebemo-nos da actividade que entra pela noite dentro, nas lavandarias, nas lojas, nos restaurantes que preparam tudo para o dia seguinte.

A essa hora os cafés estavam fechados mas as esplanadas mantinham-se montadas com as mesas atoalhadas e as cadeiras estofadas. É essa a melhor altura para os gatos saborearem o lugar que de dia lhes é negado. Vantagem da noite!

Vivemos outras belas noites em Istambul, mas esta deambulação serena e segura pela zona mais antiga da cidade mantém todo o deslumbramento de uma noite inaugural.

Cinema turco no Porto

Quarta-feira, 22 de Setembro, 2010

Na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, vai realizar-se o 1º Festival de Cinema Turco.  Esta iniciativa enquadra-se no âmbito do Curso de Língua Turca que vai ter início em Outubro. Na Universidade Nova de Lisboa são também ministrados cursos de turco.

O turco é a língua materna de cerca de 76 milhões de pessoas na Turquia, bem como de comunidades em Chipre, Bulgária e, também na Grécia, Arménia, Roménia e Macedónia. Milhões de emigrantes espalhados pelo mundo falam turco.

O 1º Festival de Cinema Turco realiza-se no Anfiteatro Nobre da Faculdade de Letras (Via Panorâmica s/n - saída Campo Alegre).

Ouvir uma língua que se desconhece no contexto de um filme é uma boa maneira de se motivar aqueles que se aventuram a conhecer e dominar uma nova língua.

PROGRAMA

Dia 23 Setembro, pelas 18:00, dois filmes:

For Love and Honour

http://www.youtube.com/watch?v=NnynOC31Ovg

“Pandora’s Box”

http://www.youtube.com/watch?v=fPkGydLvlDs&feature=related

No dia 24 Setembro, pelas 18:00 será exibido o filme

“My father and my son”

http://www.youtube.com/watch?v=ZeJRfPa7C8E&feature=related

Um tecto de livros

Terça-feira, 14 de Setembro, 2010

Um tecto de livros esperava-nos à entrada: a instalação do átrio do Istambul Modern,  “Tecto falso” (Richard Wentworth), levava-nos a olhar aquela biblioteca de livros suspensos como se de um céu se tratasse. Preparámo-nos para tirar uma fotografia mas chamaram-nos a atenção: não era permitido!

“Os livros, repositórios da verdade, do conhecimento, e de mentiras transformam-se em pouco mais do que uma superfície permeável, sedutora e simbólica.” Este era o texto que constava na parede e que nos levou literalmente a capturar às cegas algumas fotografias aproveitando o virar de costas do vigilante.

A visita não começava da melhor maneira: soubemos no local que a exposição permanente do museu que ocupa o primeiro andar estava fechada para remodelação. Tínhamos, de certo modo, preparado aquela peregrinação à casa da arte turca do século XX, recolhendo informações sobre a colecção, designadamente a lista das dez obras preferidas do curador Levent Çalıkoğlu. Não havia nada a fazer senão racionalizar a frustração e declarar: “Temos de voltar cá”.

O tempo disponível permitiu-nos explorar com calma a exposição temporária de Sarkis onde em diferentes registos – pintura, fotografia, escultura, vídeo, instalações – o artista retomou os trabalhos apresentados em exposições que fez desde 1970 dando-lhes uma nova leitura no que designou por SITE.

Percorremos os espaços do edifício ultramoderno que resultou de uma intervenção num antigo armazém do século XIX  que fazia parte da alfandega da Organização Marítima Turca. As soluções arquitectónicas e os equipamentos tornam o espaço num dos mais agradáveis lugares de exposição de arte contemporânea que já visitámos.

Mas convém deixar claro: a luz reflectida pelo Mar de Mármara é um elemento essencial em todos os cenários do edifício incluindo o restaurante. Perdemo-nos no terraço a olhar as águas prateadas que combinavam bem com a outra margem meio encoberta pelo nevoeiro; perdemo-nos a olhar navios, ferryboats, lanchas, caíques a navegar de um lado para o outro.

À saída, percorremos as redondezas do edifício que recorda as suas origens. A mistura do antigo e  do moderno estava ali bem à vista com os minaretes da mesquita a misturar-se com a coluna vermelha que assinala o museu; uma torre antiga (de quando?) em ruínas convivia com esculturas contemporâneas pousadas na relva.

Comprámos o catálogo – excelente publicação – para trazer para casa parte da colecção que não tivemos possibilidade de ver. O último parágrafo do prefácio reflectia e interpretava as estranhas convivências do passado e do presente: “ O Palácio Topkapi, um dos mais ricos museus do mundo e o museu Istambul Modern estão situados ao lado um do outro no Bósforo, onde a Europa encontra a Ásia. Nesse sentido, a geografia artística do mundo é redefinida precisamente aqui, onde o Oriente e Ocidente se encontram”. O tecto de livros remetia de algum modo para esta ligação.

Uma visita virtual ao site do museu é altamente aconselhada para preparar o que só uma vista ao vivo pode oferecer. Ver AQUI

O café Pierre Loti

Quarta-feira, 8 de Setembro, 2010

Sobrevoar a colina de túmulos do cemitério de Eyup num teleférico pareceu-nos uma ideia excelente para chegarmos ao café Pierre Loti. Apesar da chuva miudinha e da humidade, conseguimos ver as centenas de túmulos brancos entre ciprestes que constituem o que muitos chamam a colina dos mortos. Ao longe, ia aparecendo embaciado um dos perfis inconfundíveis de Istambul.

Pierre Loti está na sala principal: fotografias, textos, gravuras, recordam a presença do escritor e viajante que encontrava neste lugar ambiente para escrever. Imaginamo-lo à janela a olhar o Corno de Ouro que tem deste lugar uma das melhores perspectivas.

A cozinha onde se faz o chá integra a sala o que faz com que as brasas do samovar ajudem a tornar o ambiente mais aconchegante. Para além de chá, água e refrigerantes, só servem sandwiches, mas quem vai ao café Pierre Loti procura outras sensações: a macieza dos tecidos dos sofás, a textura das madeiras, os reflexos nos espelhos, o vidrado dos azulejos da cozinha, a cor do cobre e do latão do samovar, a luz pálida dos candelabros, a companhia de Loti e dos seus amigos. As conversas sussurradas em turco, naquele momento e naquele espaço, pareciam a música.

Perto de uma janela com vista para o mar, folheámos o livro Constantinople; alguns parágrafos justificavam leitura partilhada: “Há no mundo lugares mais grandiosos, com vegetação mais bela e montanhas mais altas. É nos detalhes íntimos, sem dúvida, que reside o encanto único do Bósforo”

Cá fora, debaixo das árvores, mesas e cadeiras em ferro sugeriam entardeceres memoráveis. Antes de descermos a colina pelos caminhos do cemitério, olhamos para a esplêndida esplanada e prometemo-nos voltar numa Primavera.