Arquivo do mês de Maio, 2011

Por debaixo da terra

Terça-feira, 24 de Maio, 2011

Um dos projectos mais desafiantes ao nível da engenharia é o projecto Marmaray (combinação das palavras Marmara e ray que em turco significa comboio). Este projecto que teve início em 2004 assegurará o transporte ininterrupto de 1 milhão de pessoas por dia, cobrindo 78 km de distância e unindo por debaixo da terra a Europa e a Ásia. O Bósforo será atravessado por um túnel de 14 km à prova de terramotos. No total, estão previstas 14 estações entre Halkali no lado europeu e Gebze no lado asiático.

Numa primeira previsão, a rede estaria pronta em 2012 mas os achados arqueológicos obrigam a constantes paragens. Entre as extraordinárias peças já encontradas contam-se ânforas, artefactos ligados a profissões e à vida quotidiana, esculturas e uma saca com nove crânios humanos que datarão de 6000 a.C. As escavações deram à luz o maior achado náutico do mundo dando a conhecer a primeira armada bizantina. A descoberta mais perturbante é a do Porto de Teodósio, o maior porto da cidade que teria sido submerso por um tsunami. De entre os vários navios recuperados de diferentes épocas históricas, destaca-se uma galera do início da Idade Média, peça única em todo o mundo.
Sugerimos o visionamento do documentário da National Geographic (4:47) onde se podem ver alguns trabalhos, alguns achados e imagens de Istambul. Entrar AQUI.

Café Kafka

Sábado, 14 de Maio, 2011

Gostamos muito de cafés. Na nossa cidade, privamos com os mais aconchegados, geralmente os mais antigos. Em viagem, os cafés fazem parte das nossas experiências mais sentidas: são os lugares onde vemos a vida a passar, onde esticamos mapas para ver onde estamos e para onde vamos, onde revemos os momentos mais fortes do dia, onde espreitamos as fotografias. É nos cafés que folheamos os jornais do país, onde lemos pedaços de livros que viajam connosco, onde sentimos saudades do “café café” português.


Foi por acaso que encontrámos o café Kafka, ao ler uma tabuleta num início de noite. Duvidaríamos da sua existência não fora vermos clientes sentados na varanda. Foi com alguma hesitação que entrámos numa porta indistinta e subimos umas escadas estreitas como se de uma habitação qualquer se tratasse. Aberta a porta, encontrámos na penumbra um espaço surpreendente: salas de tamanho médio mobiladas com sofás antigos, móveis de época, espelhos lapidados de toucador, apliques de seda … Nas mesas e cadeiras de diferentes formatos estavam sobretudo jovens que liam ou teclavam nos seus computadores.

Pedimos dois cafés e cuidámos com prudência para não bebermos o pó, a borra que descansa no fundo da turca chávena. No dia anterior, o entusiasmo da conversa e o hábito de beber tudo cobriu-nos os dentes de pasta de café amarga; dois copos de água limparam mal o sorriso preto acastanhado!
A música de fundo era um jazz swingado que não interferia nas conversas sussurradas e fizemos questão de saborear e fotografar discretamente a calma e a beleza do lugar.

Por corredores estreitos encontrámos a escada para o piso de cima. As salas eram semelhantes, com a decoração a lembrar a década de 20. Alguns solitários liam o jornal, uma família conversava baixinho e quando nos aproximámos de uma varanda para fotografar a rua, um dos jovens de uma mesa meteu conversa. Era emigrante na Alemanha e já tinha visitado Lisboa. Dos clichés de turista apressado, passou a fazer perguntas sobre a nossa experiência em Istambul e deu sugestões. Traduzia a nossa conversa para os amigos que não falavam inglês e que iam devolvendo sorrisos como resposta.

Como já ia ficando tarde, saímos com a certeza de voltar. Não sabemos quantos cafés no mundo usam o nome de Kafka. Recordámos com sobressalto “A Metamorfose”. Deixámos o pesadelo de Gregor Samsa transformado num monstruoso insecto. Preferimos àquela hora pensar que seria um bom projecto desenhar um roteiro de viagem para visitar todos os cafés Kafka do mundo. Contentes com a ideia, fomos para o hotel dormir.

Café Kafka
Yeni Çarşı Caddesi 10, Istanbul

Tulipas estremecidas

Sexta-feira, 6 de Maio, 2011


Julgámos, desde sempre, que as tulipas eram holandesas mas a história testemunha que o seu cultivo se iniciou no império otomano. Produzir tulipas era uma actividade cara reservada aos mais ricos e poderosos e muito estimulada pelos sultões e grandes vizires. A presença das tulipas ficou registada em azulejos e nas decorações de livros, tecidos, jóias e é um tema recorrente na pintura tradicional ebru.


As primeiras tulipas teriam chegado a Istambul antes do século XV vindas da Turquia oriental e do Irão; consta que foram levadas para a Holanda no século XVII. Hoje, Istambul reclama ser a capital das tulipas e, desde, 2006 que a municipalidade organiza um festival dedicado a estas flores. Em Abril, cerca de três milhões de tulipas cobrem os jardins, parques e avenidas o que leva a quem visitou Istambul em Abril/Maio falar em “rios e mantas de cor” …


Um amigo, que sabe que temos pena de nunca termos estado em Istambul durante este período do ano, trouxe-nos três tulipas numa caixa. Acompanhámos o cor-de-rosa a mudar, a murchar. Estremecidas, as tulipas resistiram durante alguns dias fora do seu sítio. Achamos que as deveríamos ver no seu lugar, em Istambul. Porque não em Abril do próximo ano? Porque não?

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