Arquivo do mês de Abril, 2010

Poemas 1

Sexta-feira, 30 de Abril, 2010

Abrimos no Facebook um grupo a que chamamos Lá & Cá – Turquia & Portugal, um sítio onde as pessoas interessadas possam registar as suas impressões, experiências, fotografias e também textos, poemas, sugestões de livros sobre a cidade de  Istambul e/ou sobre a Turquia.

A primeira intervenção coube a Jorge Velhote que registou dois poemas de dois poetas turcos – Erdal Alova e Adnan Ozner – o primeiro traduzido por Fiama Hasse Pais Brandão e o segundo pelo próprio Jorge Velhote. Haverá melhor maneira de se inaugurar um espaço?

Aqui ficam os dois poemas que convocam o Bósforo, os céus nublados, as águas, os ventos e tanto mais em Istambul.

TESTAMENTO

Novembro, Novembro, estou certo
Numa noite de Novembro
Deve ter nascido Istambul… Ver mais
A sua parteira um sol ardente
Enrolou-a num cobertor lilás
Embalou-a no berço das ondas
Os ventos que sopram do norte
Segredaram-lhe o nome ao ouvido

Quando morrer
Enterrem-me nos céus de Istambul.

ERDAL ALOVA

Tradução de Fiama Hasse Pais Brandão

SECRETO CRESCIMENTO DO AMOR

Conto na minha rede durante o inverno os dias de cardumes frios.
Aquele verão não voltará!
Aquele amor vivido que não começou… Ver mais
está na minha memória como vela por acender.
Frente ao Bósforo que de boca rasgada
torce as águas
soletramos-lhes o nome do martim-pescador
pássaro daqueles lugares como veleiro branco.

A tónica do inverno é clara, uma voz isolada,
sem nos tocar nem tirar nada de nós sopra
directamente de lugares nunca visitados.
voa com a boca rancorosa do sexo.
Para nosso aviso arroja bem longe
o mapa de altas e baixas marés.
Nem expansão, nem recuo;
nós ao meio do imaginado
o tempo que penetra em dois,
dois pontos sonâmbulos.

Agora, até tu, para este poema
fechado em si mesmo, voz solitária,
no calendário dos cardumes frios de inverno
és só uma folha que cai por si própria.

O martim-pescador agora voará
para uma palavra nova num dicionário desconhecido.

ADNAN OZER

Tradução de Jorge Velhote

Banhos turcos

Sábado, 24 de Abril, 2010

Propuseram-nos uma ida aos banhos turcos a marcar para o penúltimo dia da nossa estadia. Aceitámos logo, associando a experiência a calor, muito calor, humidade, e vapor de água. Antecipámos com prazer a moleza confortável que habitualmente se instala depois de uma estadia na neblina quente.

Sabíamos que um dos “1000 Lugares para Conhecer antes de Morrer” propostos pela jornalista Patrícia Schulz era o haman - termo turco para banho a vapor – Cagaloglu. As fotografias que vimos mostravam um espaço monumental que não reconhecíamos na zona indicada pelo recepcionista do hotel. Foi preciso “tropeçarmos” com o nome escrito no mármore do passeio para identificarmos a entrada deste haman construído em 1741. A entrada encaixada entre lojas passa completamente despercebida …

Mas bastou descer alguns degraus para percebermos que para além daquelas portas o mundo era outro.

O dia marcado para os banhos tinha sido de caminhada e experiências intensas e o corpo pedia descanso e relaxamento. A proposta recaiu nos banhos da praça Cemberlitas junto do Grande Bazar e dos mais famosos monumentos de Istambul.

Aliás, o espaço é considerado um “monumento” construído em 1584 pelo famoso arquitecto Mimar Sinan e que se mantém activo desde a sua construção.

A entrada ainda é mais modesta do que a do haman Cagaloglu, diríamos que até manifesta um razoável mau gosto! Mal entrámos, fomos encaminhados para áreas distintas mas muito semelhantes: a zona dos banhos para homens e para mulheres e os respectivos vestiários. As mulheres, depois de vestida a parte de baixo de um biquíni, enrolaram à volta do peito o “pestemal“, uma toalha grande de algodão com franjas, calçaram umas chinelas e dirigiram-se para a grande sala dos banhos. E aí percebe-se por que razão se pode classificar o espaço de monumento: na grande sala redonda, o chão, a plataforma central, as paredes, as galerias laterais são de mármore de um bege macio. Uma abóbada majestosa cobre a principal sala dos banhos. Dizem que durante o dia jorros de luz provenientes das aberturas da abóbada desenham cones brilhantes por entre os vapores de água.

Depois de colocado o pestemal sobre a plataforma central aquecida cada uma de nós deixou de ser dona do seu corpo: as assistentes com uma “kese” – luva feita de tecido rugoso – ensaboaram-nos, lavaram-nos e literalmente esfoliaram-nos da cabeça aos pés. Depois deram-nos a mão e fomos para uma galeria lateral onde jorraram água em abundância para retirar a espuma. Regressadas à plataforma deitamo-nos e não fora o barulho das conversas do grupo de espanholas e italianas e o momento seria perfeito. Num esforço de abstracção, favorecido pela imagem da cúpula monumental, pensámos nos milhares de mulheres que ao longo de mais de 400 anos, ali, deitadas deixaram que os seus pensamentos e sonhos transpusessem as fronteiras do haman.

AQUI pode-se acompanhar o repórter da BBC Michael Palin numa experiência no haman Cagaloglu.

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O Expresso Oriente

Domingo, 18 de Abril, 2010

A estação de Sirkeci é um lugar de visita obrigatória em Istambul, pela sua arquitectura e pelas memórias que evoca. A traça original do arquitecto August Jachmund mantém-se e os vitrais das suas vastas janelas e portas não perderam o brilho. Mas o que torna a estação um lugar especial no meio de tantos monumentos extraordinários da cidade é a sua associação ao famoso Expresso do Oriente.

Este comboio, propriedade da Companhia Internacional Wagons-Lits, ligava Paris a Istambul numa viagem que durava 80 horas para percorrer 3 094 Km. Na primeira viagem em 4 de Outubro de 1883, deixou a Gare de l’Est, Paris, rumo ao exotismo oriental. A Marcha Turca de Mozart assinalou a primeira partida de tantas viagens que terminaram com o fim da ligação em Maio de 1977.

Quando percorremos o cais onde continuam a chegar os comboios vindos da Europa e da cidade de Erdine, procurámos o ambiente de outros tempos. Mas, apesar do relógio Nacar, do sino que outrora dava o sinal de partida, dos bancos, das colunas, a modernidade das novas composições não permite devaneios. Tivemos de ir ao salão onde se guardavam as bagagens para retomar o tempo de outros tempos: o silêncio do sítio, a penumbra, as cores quentes dos vitrais, o chão brilhante… Um solitário leitor de jornal parece que ficou esquecido no tempo, nem dá conta da nossa presença.

O restaurante, que se chama “Expresso Oriente”, não é famoso pelas refeições que oferece mas não resistimos a sentarmo-nos numa das mesas por algum tempo. Decidimos tomar um chá acompanhado por breves biscoitos para convivermos com as memórias de tempos gloriosos em que acolheu celebridades que continuam a sorrir nas paredes.

Aqui, seguindo as fotografias e os cartazes da época, foi possível imaginarmos o comboio luxuoso que transportava gente habituada às finas porcelanas, aos copos de cristal, às toalhas de linho, às ementas elaboradas. Não é de estranhar que este ambiente requintado tenha servido de cenário para enredos de obras de escritores como Graham Green, Ian Fleming e Agatha Cristie. Sem dúvida que o romance desta autora “Crime no Expresso Oriente”, adaptado ao cinema em 1977 por Sidney Lumet, em muito contribuiu para a imagem mítica do célebre comboio. Não resistimos a inserir uma ligação para o trailer do filme e rever Albert Finney, Laureen Bacall, Ingrid Bergman, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave e, entre outros, o comboio. AQUI.

Ficará para a próxima viagem a Istambul reencontrar a estação à noite, envolta em nevoeiro, e imaginar a chegada do Expresso do Oriente.

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Os dervixes em Portugal

Quarta-feira, 7 de Abril, 2010

O facto de Istambul ser este ano uma das capitais europeias da cultura motivou um novo interesse sobre a cidade e sobre a Turquia. O “Festival Pontes para Istambul” no Centro Cultural de Belém e as iniciativas desenvolvidas pela Associação de Amizade Luso-Turca trouxeram a Portugal a literatura, a música, a dança, o cinema, a pintura, a fotografia e outras manifestações culturais turcas.

O carácter enigmático da dança dos dervixes justificará a grande afluência de público nos doze espectáculos realizados nas cidades do Porto, Évora, Braga, Portimão, Coimbra, Aveiro e Lisboa. Foram muito diversos os espaços onde se realizaram os espectáculos de dança e música sufi: igrejas, teatros, museus, auditórios de universidades e associações culturais, câmaras municipais…

No Porto, o Museu Soares dos Reis abriu o seu espaço ao espectáculo Sema. Para quem conhece o museu foi uma experiência nova percorrer de noite os espaços habitados por Aurélia de Sousa, Henrique Pousão, Soares dos Reis e Teixeira Lopes até chegar ao auditório. Durante duas horas a música e os dervixes rodopiantes trouxeram uma parte da Turquia a uma sala que foi pequena para tanto público.

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