Um tecto de livros

Um tecto de livros esperava-nos à entrada: a instalação do átrio do Istambul Modern,  “Tecto falso” (Richard Wentworth), levava-nos a olhar aquela biblioteca de livros suspensos como se de um céu se tratasse. Preparámo-nos para tirar uma fotografia mas chamaram-nos a atenção: não era permitido!

“Os livros, repositórios da verdade, do conhecimento, e de mentiras transformam-se em pouco mais do que uma superfície permeável, sedutora e simbólica.” Este era o texto que constava na parede e que nos levou literalmente a capturar às cegas algumas fotografias aproveitando o virar de costas do vigilante.

A visita não começava da melhor maneira: soubemos no local que a exposição permanente do museu que ocupa o primeiro andar estava fechada para remodelação. Tínhamos, de certo modo, preparado aquela peregrinação à casa da arte turca do século XX, recolhendo informações sobre a colecção, designadamente a lista das dez obras preferidas do curador Levent Çalıkoğlu. Não havia nada a fazer senão racionalizar a frustração e declarar: “Temos de voltar cá”.

O tempo disponível permitiu-nos explorar com calma a exposição temporária de Sarkis onde em diferentes registos – pintura, fotografia, escultura, vídeo, instalações – o artista retomou os trabalhos apresentados em exposições que fez desde 1970 dando-lhes uma nova leitura no que designou por SITE.

Percorremos os espaços do edifício ultramoderno que resultou de uma intervenção num antigo armazém do século XIX  que fazia parte da alfandega da Organização Marítima Turca. As soluções arquitectónicas e os equipamentos tornam o espaço num dos mais agradáveis lugares de exposição de arte contemporânea que já visitámos.

Mas convém deixar claro: a luz reflectida pelo Mar de Mármara é um elemento essencial em todos os cenários do edifício incluindo o restaurante. Perdemo-nos no terraço a olhar as águas prateadas que combinavam bem com a outra margem meio encoberta pelo nevoeiro; perdemo-nos a olhar navios, ferryboats, lanchas, caíques a navegar de um lado para o outro.

À saída, percorremos as redondezas do edifício que recorda as suas origens. A mistura do antigo e  do moderno estava ali bem à vista com os minaretes da mesquita a misturar-se com a coluna vermelha que assinala o museu; uma torre antiga (de quando?) em ruínas convivia com esculturas contemporâneas pousadas na relva.

Comprámos o catálogo – excelente publicação – para trazer para casa parte da colecção que não tivemos possibilidade de ver. O último parágrafo do prefácio reflectia e interpretava as estranhas convivências do passado e do presente: “ O Palácio Topkapi, um dos mais ricos museus do mundo e o museu Istambul Modern estão situados ao lado um do outro no Bósforo, onde a Europa encontra a Ásia. Nesse sentido, a geografia artística do mundo é redefinida precisamente aqui, onde o Oriente e Ocidente se encontram”. O tecto de livros remetia de algum modo para esta ligação.

Uma visita virtual ao site do museu é altamente aconselhada para preparar o que só uma vista ao vivo pode oferecer. Ver AQUI

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