Arquivo do mês de Maio, 2010

Jazz em Istambul

Domingo, 30 de Maio, 2010

Foi ao subir a caminho da Torre Galata ao entardecer que descobrimos, por mero acaso, o Nardis Club Jazz. Para quem tinha na agenda assistir a um concerto de jazz em Istambul, foi um feliz acaso. Embora encerrado à hora a que passámos, alguém saía e nos informa do programa para a noite seguinte: duas guitarras: Önder Focan (www.focanjazz.com ) e Cem Tuncer (www.cemtuncer.com ) e um baixo, Harvey S (www.harvies.com ). Feitas as reservas, lá estávamos no dia seguinte. Fomos um pouco mais cedo para jantarmos e apreciarmos o ambiente.

O concerto consistiu num diálogo entre duas gerações de guitarristas em torno de standards que seguimos numa viagem de muitos reconhecimentos. Pelos programas passados e pelas propostas para as semanas seguintes percebemos por que razão o baixista norte-americano declarara que seria bom que em Nova Iorque houvesse muitos clubes com a qualidade do Nardis.

A memória desta noite no Nardis foi activada pelo anúncio do programa do 17º Festival de Jazz que se realiza em Istambul de 1 a 20 de Julho. É considerado um dos mais bem organizados festivais de jazz da Europa e este ano conta com um programa variado onde estará presente Chick Corea Freedom Band, Grace Jones entre muitos outros.

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O palácio subterrâneo

Quarta-feira, 26 de Maio, 2010

Perto da Mesquita Azul e de Hagia Sophia fica a cisterna subterrânea de Yerebatan a que os turcos chamam de ‘Yerebatan Saray’, ou seja, palácio subterrâneo. Depois de descermos 52 degraus de pedra, entrámos numa verdadeira floresta de colunas com capitéis de estilo jónico, coríntio e algumas de estilo dórico. Este lugar é mais um exemplo das muitas perplexidades de Istambul: trata-se, afinal, de um reservatório de água!

Foi Justiniano I, no século VI, que mandou construir a cisterna capaz de  armazenar 80  milhões de litros de água,  quantidade adequada para  abastecer a cidade no caso de  se ser atacada e cercada pelos inimigos. Durante muito tempo abasteceu de água o Grande  Palácio de Constantinopla e o Palácio Topkapi.

Os passadiços permitem que se passeie por entre as 336 colunas de mármore que nascem da água e sustentam as abóbadas em tijolo. Algumas colunas apresentam motivos decorativos gravados sendo a mais inquietante aquela em que parece escorrer lágrimas.

Contudo, é no fundo da cisterna que está reservada a maior surpresa: duas colunas apoiam-se em bases que são cabeças de Medusas. Numa delas, a cabeça está pousada de lado, noutra a cabeça está voltada para baixo. É um mistério a origem destas figuras e a intenção da sua colocação neste lugar e  nesta posição. São muitos os rumores e mitos em volta delas.

Mas no momento, esquecemos as histórias de amores, ciúmes, despeitos, traições e vinganças associados a Medusa. Chega a perplexidade que aqueles rostos de pedra nos provocam.

O lugar

Segunda-feira, 17 de Maio, 2010

Desde o primeiro post declarámos o nosso investimento afectivo em Istambul que marca necessariamente o modo como vivemos a cidade e como a contamos. Assumimos, desde logo, que os sentimentos e as emoções afectam os nossos textos e as nossas fotografias. Num exercício de objectividade procuramos na Wikipedia a descrição da sua geografia e recolhemos uma imagem de satélite.

Diz a Wikipedia que a cidade de Istambul está dividida em duas partes pelo Bósforo que é o estreito que liga o Mar da Mármara com o Mar Negro. Uma parte da cidade fica na Europa e outra na Ásia tornando Istambul na única cidade do mundo que está situada em dois continentes.

Chama-se Corno Dourado à entrada do Bósforo que divide a cidade e que forma um porto natural que abrigou barcos gregos, romanos, bizantinos e otomanos durante milhares de anos. É um estuário com a forma de uma cimitarra que liga o Bósforo precisamente no ponto em que o estreito entra no mar da Mármara.

Ao vermos a imagem de satélite de Istambul e ao lermos a descrição geográfica da cidade compreendemos que afinal as nossas fotografias e os nossos textos não são tão “suspeitos” como pensávamos.

Aquele chão …

Domingo, 9 de Maio, 2010

Todas as inaugurações das nossas exposições de fotografias são acontecimentos especiais por tudo o que está envolvido na sua concepção e preparação, mas sobretudo pelos pequenos nadas (que são pequenos “tudos”) que acontecem no encontro inaugural.

No sábado, o fórum da FNAC de Sta. Catarina foi-se enchendo de amigos, de curiosos ocasionais, de amantes de Istambul que procuravam reconhecer a cidade visitada, de amigos fotógrafos, de mestrandos turcos em universidades do Porto, de turistas acidentais que passaram e foram ficando.

O samovar trazido pela Associação Luso Turca lembrava a promessa de um chá no fim da sessão e os doces lokum cor-de-rosa brilhavam em cima do piano coberto. Apercebemo-nos, pouco antes de começar, de uma falha: a música de fundo era um jazz de qualidade mas o momento precisava de outro som, achávamos nós. Mas há falhas felizes: o Pedro providenciou um som múltiplo de várias bandas turcas que se reuniram no CD “Twilight Istambul”. Este som mostrou o seu efeito nas pessoas que literalmente esgotaram o stock de exemplares disponíveis.

Na nossa intervenção não poderíamos deixar de convocar o Tiago Salazar, companhia nos cinco dias em Istambul, reforçando ainda mais o sentido do título de um dos seus livros “Viagens sentimentais”. Remetemos o nosso percurso da melancolia ao nosso guia, Pamuk, que continua a dar-nos a conhecer a cidade mesmo depois de a termos deixado. Nas caras de tantos percebemos o reconhecimento que o nome dos lugares provocava e ousamos dizer que as saudades andavam por aqueles olhares que se iam perdendo nas imagens e nas palavras. Na hora, não pudemos deixar de olhar com um pedacinho de inveja para a Alice que há dois meses teve o privilégio de ver Istambul coberta de neve.

Mas foi à volta do chá e dos lokum com sabor a rosas que os encontros e reencontros se reforçaram, que as conversas se multiplicaram ao longo de mais de uma hora. Os amuletos contra o mau-olhado iam sendo guardados nas carteiras e nos bolsos – “Não somos supersticiosos mas mal não faz e bem nunca se sabe”.

Mas nestes encontros inaugurais há sempre um momento especial (que nos perdoem todos os outros momentos): um visitante desconhecido abordou-nos e apontando para uma das fotografias perguntou se “aquele chão” era o chão do primeiro andar da Hagia Sophia.

Dissemos que sim, admirados pelo reconhecimento daquele mármore cheio de veios partidos pelos passos de tantos e pelos tremores de terra. E com um “Bem me parecia!” desapareceu. Não sabemos quem era aquele que fixara como nós um pedaço de chão apesar do esplendor dourado das cúpulas, das colunas majestosas, e das luminárias da mesquita. Percebemos o sortilégio de uma cidade que provoca tantas experiências sentidas e partilhadas e que justifica que no Porto, para além da nossa exposição na FNAC, Teresa Lamas Serra na Axa Seguros fixe Istambul nas suas fotografias.

Huzun-Roteiro da melancolia em Istambul

Segunda-feira, 3 de Maio, 2010

Já confessámos: a nossa experiência em Istambul foi muito marcada pelo livro de Pamuk Istambul – Memórias de uma Cidade. Os relatos sobre as suas vivências na infância e na adolescência desenharam um mapa sentimental da cidade que procurámos explorar.

Foi o huzun, que o Google Tradutor traduz por tristeza, que mais nos sensibilizou levando-nos à descoberta das suas manifestações. E a questão começa logo na forma como o termo é traduzido e que Pamuk esclarece: “…  huzun (muito próximo de melancolia) é um sentimento interiorizado com orgulho e ao mesmo tempo partilhado por toda uma comunidade”. Não é, portanto, um sentimento individual, não é a melancolia experimentada por uma pessoa, é do huzun, da melancolia da cidade que se trata.

Em Istambul, procurámos os locais, as personagens, as situações identificadas por Pamuk em que o sentimento de melancolia se manifesta: os homens que pescam na ponte Galata, os barbeiros e os alfarrabistas que se queixam da crise, as crianças que jogam à bola na rua, as mulheres de lenço islâmico que esperam em silêncio o autocarro, as multidões apressadas para apanhar os vapur, os cemitérios no centro da cidade…E nesta busca, encontrámos outras formas que aos nossos olhos manifestam huzun.

Em Dezembro, na paisagem dominam o preto, o branco e os cinzentos que parecem contaminar as pessoas que usam roupas acinzentadas, indistintas. Os mármores gastos das fontes e das mesquitas reforçam o tom que domina a cidade. Este ambiente tinha para nós um sentido poético e desse ambiente só poderíamos fazer fotografias a preto e branco.

Vamos expor no Fórum da FNAC de Sta. Catarina, no Porto parte do roteiro da melancolia em Istambul. A exposição que inaugura no dia 8, sábado, pelas 17:00 fica por lá até ao dia 28 de Maio.