A espera em Istambul

 

Na mesquita, o tempo era de oração e, por isso, tínhamos de esperar. Queríamos repetir fotografias das abóbadas iluminadas pela luz da manhã de sol e estava fora de questão desistir.

Conformamo-nos  à espera na fila de turistas que se ia formando. E foi o olhar preguiçoso que começou a descobrir as sombras na parede, as fissuras da pedra, os gatos que esperavam uma meiguice nossa, as formigas que saiam de um buraco, as pegadas no chão, as folhas recentemente caídas. Íamos sentindo o lugar do tempo, de tantos tempos presentes naquele lugar.

De repente, aquele pequeno mundo que nos rodeava ganhava um imprevisto interesse e foi com pena que ouvimos o inglês que nos seguia na fila dizer que devíamos avançar.

A experiência da espera prolongou-se no interior da mesquita ao olharmos os crentes e quando suspendíamos a respiração para não comprometermos a focagem das fotografias captadas com pouca luz.

Naqueles momentos e nos dias que se seguiram, passamos a percepcionar a espera de outro modo. Percebemos que a espera é uma aparente pausa na sequência da vida e que as esperas valem por si como componentes importantes do presente. Descobrimos que a espera nos deixa desfrutar o mundo de outro modo e que nos leva a pensá-lo e sentir-lo de outra forma.

Passámos então a olhar de outra maneira os pescadores na ponte Galata, os passageiros na estação de ferries de Karakoy, os crentes à entrada das mesquitas, os vendedores nos bazares, os homens e as mulheres nas esplanadas e nos jardins.

A espera pode ser mais do que uma pausa, as esperas podem ser momentos cheios de vida dentro. Descobrimos isso à espera, em Istambul.

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