Arquivo do mês de Outubro, 2010

A espera no Grande Bazar

Sábado, 30 de Outubro, 2010

Um gato a dormir enroscado sobre si mesmo é uma imagem serena e apaziguadora. Quem tem gatos sabe do que falamos: quietos, redondos e macios, são um convite à serenidade. A sua quietude, sublinhada pelo vaivém da respiração leve, é o sinal do seu bem-estar e do lugar em volta.

Quando entrámos no Grande Bazar esperávamos um lugar agitado, barulhento, com intensos convites à compra. Dobrada a primeira esquina, vimos o primeiro de muitos gatos a dormir confortável sob a luz de ouros cintilantes.

Guiados pela imagem do gato amarelo adormecido, percorremos o Grande Bazar durante horas. Não sabemos o que não vimos porque decidimos perder-nos naquele mercado coberto com mais de 500 anos. Passámos, de certeza, diante de dezenas e dezenas de lojas organizadas por produtos, mas o Bazar tem mais de 3000 lugares onde mais de 20 000 pessoas vendem quase tudo. Ficou quase tudo por ver!

Retivemos as cores, claro, espreitámos de vez em quando as abóbadas e fixámos alguns olhares nos azulejos, recusámos contidos convites à compra., resistimos à curiosidade de explorar as tendas. Confessámos que os nossos olhares estavam contaminados – aliás, como todos os olhares – e fixámos cenas de quietude, de espera. A ler o jornal, a organizar a mercadoria já organizada, ou simplesmente parados, os vendedores estavam à espera.

Reconhecíamos em alguns o huzun, a melancolia de que Pamuk falava sobre a cidade. Foi a procura dessa melancolia que nos guiou no bazar e que nos levou a experimentar uma tranquilidade inesperada.

Este é o verdadeiro Grande Bazar? Desconfiamos que não. Voltaremos, em Dezembro, a Istambul à procura dos muitos bazares que o Grande Bazar tem.

Amor noutra língua

Terça-feira, 19 de Outubro, 2010

“Başka Dilde Aşk”, “Amor noutra língua”, é um filme turco realizado por İlksen Başarır que acaba de ganhar quatro prémios no Festival Internacional de Cinema de Chipre: melhor actor, melhor realizador, melhor cenário e melhor filme.

O filme conta a história de um romance entre dois jovens, Onur que é surdo-mudo e trabalha numa livraria e Zeynep que é empregada num call center. No centro da história, está a dificuldade de comunicação entre ambos e entre o casal e o mundo.

A participação de um filme turco num festival organizado pela parte grega de Chipre tem um especial significado dada a tensão que envolve os dois países desde 1974 devido à disputa da soberania da ilha do mar Mediterrâneo. Os problemas de comunicação mas também a sua ultrapassagem estão para além das vidas de Onur e Zeynep.

Esperemos que o filme passe nas salas de cinema portuguesas.

O tapete voador

Segunda-feira, 11 de Outubro, 2010

Os tapetes turcos estão em todo o lado: nas paredes, a forrar cadeiras e mesas, no chão das lojas, das casas, das mesquitas … Quando o muezzin apela à oração, são muitos os que desenrolam o seu tapete preparando-se para rezar.

Ir a uma loja de tapetes é a oportunidade para ouvir as histórias que os tapetes contam e que se confundem com a História da Turquia. Fomos a um dos muitos lugares aconselhados pelos guias e pelos locais. Subimos dois andares: os passos e as vozes eram abafados pelos tapetes de diferentes cores, tons e padrões que se organizavam em pilhas por todo lado. As paredes estavam cobertas pelas peças mais valiosas. Sentamo-nos no chão a ouvir.

A acompanhar o café que nos foi servido, o dono iniciou a sua performance, desdobrando tapete atrás de tapete.  Cada um tinha a sua história, a sua identidade que se exprimia na forma e conteúdo. De cada um, dizia das urdiduras, tramas, cortes e ataduras, dos diferentes tipos de nós (simples, duplos, simétricos e falsos)… Chamou a atenção para a arquitectura de cada um: os medalhões, as bordas, os cantos, as franjas. Falou das matérias de que são feitos, dos diferentes tipos de tear, das ferramentas, dos corantes que atribuem cores únicas a estas peças. Desocultou direitos e avessos.

Parte do seu discurso erudito escapou-nos, sobretudo quando fazia voar um tapete: bailarino, o tapete rodopiava no ar e aterrava aos nossos pés a uma distância conveniente.

Chegámos ao fim da sessão e não comprámos nenhuma peça, o que não provocou qualquer atitude de desagrado: tínhamos sido bons ouvintes, interessados e atentos. Da primeira ida a Istambul, trouxemos um tapete kilim de lã azul forte e magenta sob um fundo de seda beije que está à entrada da nossa casa. Na geometria dos seus desenhos, estão animais estilizados: o cão, o camelo, o leão, o veado e outros não identificados. Estão lá também escondidos quatro helicópteros e dois tanques, uma referência à guerra Irão-Iraque. As artesãs dissimularam na trama geométrica as suas preocupações infringindo as regras estabelecidas na concepção e fabrico do tapete tradicional. O nosso tapete testemunha que o protesto e a mágoa têm muitas formas de serem ditos.