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Beringelas, figos, conversas e

Sábado, 8 de Janeiro, 2011

Eveline Zoutendijk é uma holandesa com um percurso de vida muito peculiar. Tirou o Grande Diploma de chefe de cozinha no Le Cordon Bleu de Paris e integrou uma equipa de dezasseis homens na cozinha de um restaurante com estrelas Michelin, na Holanda. Trabalhou no Hotel St. Regis, em Nova Iorque e “abriu” o Four Seasons George V, em Paris. Em 1997, decide viajar pelo mundo e, em Maio desse ano, a Turquia causa-lhe um forte impressão.
Dois anos depois, toma uma decisão radical: mudar-se para Istambul e aí reorganizar a sua vida. Depois de várias experiências, decide abrir um espaço próprio – Cooking Alaturca – onde, para além de um restaurante, dá aulas de cozinha otomana.

Descobrimos este lugar no Google, quando procurávamos aulas de culinária turca. Consideramos que a gastronomia é uma das mais fortes manifestações da cultura de um povo e as experiências que já tínhamos tido noutras viagens mostraram que as aulas de culinária misturam os ingredientes prescritos nas receitas com a História do país.
Às 16:00 apresentaram-se os candidatos a aprendizes de feiticeiro na aventura da gastronomia otomana: dois jovens casais australianos e dois canadianos (pai e filho).
Eveline avisa que vamos ter que “meter a mão na massa” e, por isso, há que pôr aventais. O chefe turco Feysi, apesar do inglês elementar, fazia-se entender através de gestos eficazes. Os dois conseguiram que o grupo se organizasse e ao longo de duas horas preparámos cinco pratos.

Para além de uma deliciosa sopa de lentilhas vermelhas e bulgur com menta seca e pimento vermelho, preparámos uma entrada com espinafres e queijo a que se seguiu a perna de borrego abraseada e estufada com legumes e com um acompanhamento muito especial e que já reproduzimos várias vezes desde que chegámos: beringela fumada.

Merece, por isso, uma atenção especial: pega-se na beringela e coloca-se directamente sobre o fogo (na chama do fogão a gás ou no braseiro do churrasco) A beringela está pronta quando a pele se apresenta tostada e que se retira facilmente pegando pelo pé com a ajuda de uma faca. Corta-se aos pedacinhos e esmaga-se em puré com um garfo. Envolve-se com um pouco de molho bechamel e assim fica pronto um acompanhamento delicioso e com um sabor único. Se em Portugal se diz que há mais de 1000 maneiras de se cozinhar bacalhau os turcos utilizam a mesma expressão para a beringela. A fumada é uma das nossas preferidas.

Depois de tudo preparado fomos para a mesa onde se misturaram os cheiros das especiarias, os sabores surpreendentes, as experiências vividas em Istambul com histórias de vida tão diferentes mas tão parecidas no gosto pela boa culinária e pelo prazer de viver a cidade.

À sobremesa comemos figos recheados com nozes que fizemos estagiar numa calda de açúcar, água, um gomo de limão e cravinhos. Terminámos a refeição com um café turco que Feysi fez questão que preparássemos.

No fim, despedimo-nos; nós e os outros aprendizes, percebemos que seria difícil voltarmo-nos a encontrar. Mas talvez no Canadá e na Austrália a beringela fumada, a sopa de lentilhas, o borrego estufado ou os figos tenham trazido à memória as horas em que juntos partilhámos os sabores da cozinha otomana.

NOTA
O preço da sessão e do jantar é de cerca de 60€ por pessoa.
Localização – Akbiyik Caddesi 72ª, em Sultanahmet
Site – http://www.cookingalaturka.com/