Arquivo do mês de Março, 2010

Dervixes

Segunda-feira, 22 de Março, 2010

Os espectáculos dervixe, associados directa ou indirectamente às actividades dos “Dias da Cultura Turca”e ao “Festival Pontes para Istambul”, tornaram presente a experiência que vivemos na cidade. É um facto que os dervixes fazem parte do imaginário associado à Turquia: fotografias, filmes e descrições várias criam expectativas e também perguntas a que não é fácil dar resposta. As vestes, o rodopio dos intervenientes, o cerimonial e, sobretudo, o sentido de tudo isto, tornam inevitável o desejo de ver os dervixes a agir num dos espaços de Istambul.

Alinhámos na proposta que então nos foi feita para assistir a uma actuação no Centro Cultural Hodjapasha que fica no sopé da colina de Sultanhamet, próximo da estação Sirkeci. O edifício era, até 1988, um banho turco chamado Hoca Paşa muito frequentado pelos istambulenses. A grande cúpula da sala principal, que aloja 550 espectadores, impressiona logo que se entra e o nosso olhar foi-se perdendo nas paredes de pedra talhada enquanto esperávamos.

Entrou primeiro a orquestra que tradicionalmente acompanha a sema, nome que designa a dança rodopiante dos dervixes. Seguiram-se os dez intervenientes que, em gestos lentos e silenciosos, se prepararam para a dança. Ao iniciar-se a dança-ritual acompanhada pela música densa e cadenciada, percebemos que o rodopio cada vez mais rápido tem um efeito hipnótico que de algum modo nos contagia. O círculo onde os dançarinos se movem, os movimentos rodopiantes sobre um pé, a forma redonda dos chapéus usados e os movimentos das saias simbolizam a perfeição, a busca do diálogo com a divindade, o desejo de paz e plenitude. Durante o ritual a mão direita dirige-se para o alto em busca da bênção divina e a mão esquerda em direcção ao solo simbolizando a dádiva.

Não sabemos se o Centro Cultural Hodjapasha é o melhor espaço para vivermos a experiência associada ao movimento Sufi. Contudo, quando na última noite regressávamos de um espectáculo de jazz, fomos surpreendidos por um som e uma imagem: num pátio de um restaurante sem clientes, um dervixe rodopiava sozinho ao som da música tocada por três executantes. Ficamos quietos, ao longe encostados ao corrimão de uma escada. Roubámos uma só fotografia daquele momento solitário e percebemos que num próximo regresso a Istambul iremos procurar outros sítios onde os rodopios dervixes aconteçam.

Alguns excertos de dança dervixe podem ser vistos AQUI 1 AQUIAQUI3

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O Olho de Istambul

Segunda-feira, 8 de Março, 2010

Não é por acaso que Ara Guler (1925) é considerado o Fotógrafo de Istambul ou o Olho de Istambul: quem projectar uma visita a Istambul deve ver o trabalho de Ara Guler aproveitando, por exemplo, a exposição Istambul Perdida (Lost Istambul) 1950-1960 que está no CCB no âmbito do festival “Pontes para Istambul”.

A cidade está diferente, porque se passaram muitos anos mas reconhecem-se espaços, situações, sítios, pessoas e, sobretudo, o sentimento de nostalgia, de melancolia, o “huzun” (palavra de difícil tradução) que Pamuk no seu livro “Istambul – Memórias de uma cidade” comenta e ilustra

Pamuk, precisamente nessa obra, reproduz 54 fotografias de Ara Guler e confessa que foram muitas dessas fotografias que desencadearam memórias adormecidas da sua infância e adolescência em Istambul.

E  por vezes (… ) ao observar a magnifica fotografia que me evocava uma recordação muito antiga e recorrente, eu apressava-me, como num sonho, por reter cada reminiscência ou por anotá-la. Os inesgotáveis e incríveis arquivos de Ara Guler, que suscitam em mim o prazer visual e a embriaguez das recordações, constituem a melhor memória da vida e das paisagens de Istambul desde 1950”.

O vídeo Black and White combina uma boa sequência das fotografias de Ara Guler com a música dos Nightwish.

A ver, mesmo AQUI

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