Um louco amor no museu

Finalmente abriu, em Istambul, o Museu da Inocência. Contámos no post de dezembro de 2010 a nossa demanda em busca do que na altura não existia: um museu na rua Çukurcuma, anunciado por Orhan Pamuk no romance de 2008 “O Museu da Inocência”.

Retomemos a história passada entre Maio de 1975 e os últimos anos do século XX, que se conta rapidamente, sem que isso retire qualquer interesse a futuros leitores: Kemal é um jovem empresário filho de uma família abastada, frequenta os meios burgueses de Istambul e está noivo de Sibel, uma turca moderna que conhece bem a Europa. Passa parte do Verão numa casa nas margens do Bósforo (yalis) e com os seus amigos partilha uma admiração pelo modo de viver europeu. Perde-se de amores por uma prima afastada que é empregada de balcão.

Esta paixão obsessiva leva-o a recolher objetos que Fusun tocou ou usou e que ele guarda: beatas (mais de 4 000), travessões, brincos, lenços, sapatos, bilhetes de cinema e de autocarro, copos usados por ela. Com estes objetos decide preservar a sua paixão num museu, o que o leva a visitar 1743 museus do mundo para usar a metodologia mais adequada à sua constituição.

Artefactos expostos no Museu da Inocência / Bulent Kilic (AFP)/El Pais

A inauguração do museu foi sendo sucessivamente adiada, até que, finalmente, há cerca de quinze dias, o museu abriu as suas portas. Nos três andares do edifício vermelho da rua Çukurcuma, podem-se ver, segundo as reportagens dos jornais, milhares de objetos que refletem um tempo de uma cidade e que cumprem o desejo de Pamuk “Quero que o meu museu seja o museu da cidade, que inclua tudo, desde mapas das ruas, a fechaduras, a maçanetas de portas, passando por telefones públicos e o som das sirenes de nevoeiro”. Afinal, “documentos de uma Istambul que já não existe e um olhar poético ao passado da cidade através dos olhos de um apaixonado”, “Quero encher [o museu] modestamente com as coisas que fazem a cidade, que fazem qualquer cidade”.

As 639 páginas do romance são, assim, muito mais do que a história de um amor desmesurado de um homem por uma mulher: são antes de tudo a manifestação do amor por Istambul e o desejo de preservar a memória de uma cidade, de um tempo marcado pela nostalgia, pelo huzun.

O museu já tem um site:

http://www.masumiyetmuzesi.org/W3/Default-ENG.htm que anuncia que se levarmos o livro se cumpre a promessa do autor: na página 626 está um bilhete que dá direito a uma entrada individual no lugar onde parte da memória sentimental de Pamuk reside.

 

Objetos expostos no Museu da Inocência / Tolga Bozoglu (EFE)/ El Pais

 

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5 Comentários a “Um louco amor no museu”

  1. Stela Borges de Almeida diz:

    Parece que nem todos(as) turcos(as) conhecem e gostam dos livros de Orhan Pamuk. Porém, para os estrangeiros que visitam Instambul, a ficção deste erudito e sensível escritor é um convite a adentrar-se nesta cidade tão bonita e enigmática. O Museu da Inocência é uma porta de acesso encantadora! Irei visitá-la sempre.

  2. istambul5dias diz:

    É verdade que muit@s turc@s têm reservas em relaçao a Pamuk. É um pouco como Saramago em Portugal …

  3. Adriana Silva Graça diz:

    Li sofregamente “O Museu da Inocência”, em Dezembro de 2011. Foi um mundo que se me abriu! Fico feliz com esta notícia. E a certeza de que está próxima a minha ida a Istambul…

  4. istambul5dias diz:

    A cidade é de facto surpreendente e os livros de Pamuk sao excelentes guias para a sua descoberta afetiva.
    Espreite esta proposta de viagem a Istambul aprazada para fins de outubro: http://www.fotoadrenalina.com/expeditions.aspx?expedition=49

  5. Patrícia Gazoni diz:

    Fiquei muito emocionada ao ler Museu da Inocência, estruturado de uma maneira tão realista que me deixou abatida. Seria mesmo uma ficção?
    No dia seguinte ao fim da leitura, fui procurar na internet algo que pudesse me dar mais informações sobre este grandioso romance. Para mim, prefiro pensar que a história entre Kemal e Füsun foi verdadeira, pois ainda não ficou claro o limite entre a fantasia e a vida, e nunca ficará. Eis que o Museu existe e foi inaugurado. Que imaginação notável a deste escritor. Que meios ele se utiliza para chegar aos seus objetivos! Estou muito agradecida por todas as sensações que o livro me provocou. Pamuk, se um dia você chegar a ler este comentário, eu quero te dizer que foi muito importante prá mim. Em breve, serei Museóloga, e nunca deixarei de visitar o Museu do amor de Kamal em Istambul. Quero muito ver a foto de Füsun! Com toda a minha consideração, um grande abraço.

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