Arquivo da Categoria ‘Sítios’

Livrarias em Istambul

Terça-feira, 8 de Junho, 2010

Uma das surpresas de Istambul são as livrarias. É fácil perdermo-nos nos espaços que são mais do que postos de venda de livros. A primeira que nós visitámos foi a livraria Robinson Crusoe que nos seus sacos em papel pardo regista o seguinte:

Robinson Crusoe

1. O herói do romance de Daniel Defoe, “ A vida e as extraordinárias aventuras de Robinson Crusoe”, publicado em 1719.

2. Uma livraria com um estilo muito próprio, localizada em Pera, Istambul, no nº 389 da rua Istiklal. Um armazém de livros escolhidos estabelecido em Setembro de 1994. Um arquivo onde se encontram livros à disposição, acessíveis a todos. Uma praça, ponto de encontro não só dos que olham e ouvem mas também dos que vêem e escutam. Uma livraria onde se vai não só para comprar livros mas para os procurar, perguntar por eles, percorrer e cheirar as folhas, e encontrar, descobrir e mesmo escrever livros”.

E se muitas vezes o texto publicitário é enganoso, neste caso é apropriado à realidade. Na livraria Robinson Crusoe perdemo-nos, literalmente, por entre os labirintos das prateleiras de madeira castanha escura. Dizem-nos que a livraria tem mais de 40 000 livros e nós acreditamos. Aproveitámos o lugar para comprarmos um livro de fotografia de Ara Guler e um livro de cozinha turca. Ficaram os olhos na secção de poesia turca e, no momento, achamos que faria todo o sentido aprendermos turco.

A Pandora, fica também na rua Istikâl bem perto da praça Taksim num prédio moderno. São três andares de livros em que os clássicos e a ficção contemporânea convivem. Não tivemos oportunidade de explorar todo o espaço porque entrámos uma hora antes de fechar, e uma hora neste lugar é quase nada.

Ficou por visitar a livraria Homer que nos foi vivamente recomendada: são mais 30 000 títulos especializados em arte, arqueologia, história e arquitectura. Tal como noutras situações, aqui está mais um motivo para regressar a Istambul.

O palácio subterrâneo

Quarta-feira, 26 de Maio, 2010

Perto da Mesquita Azul e de Hagia Sophia fica a cisterna subterrânea de Yerebatan a que os turcos chamam de ‘Yerebatan Saray’, ou seja, palácio subterrâneo. Depois de descermos 52 degraus de pedra, entrámos numa verdadeira floresta de colunas com capitéis de estilo jónico, coríntio e algumas de estilo dórico. Este lugar é mais um exemplo das muitas perplexidades de Istambul: trata-se, afinal, de um reservatório de água!

Foi Justiniano I, no século VI, que mandou construir a cisterna capaz de  armazenar 80  milhões de litros de água,  quantidade adequada para  abastecer a cidade no caso de  se ser atacada e cercada pelos inimigos. Durante muito tempo abasteceu de água o Grande  Palácio de Constantinopla e o Palácio Topkapi.

Os passadiços permitem que se passeie por entre as 336 colunas de mármore que nascem da água e sustentam as abóbadas em tijolo. Algumas colunas apresentam motivos decorativos gravados sendo a mais inquietante aquela em que parece escorrer lágrimas.

Contudo, é no fundo da cisterna que está reservada a maior surpresa: duas colunas apoiam-se em bases que são cabeças de Medusas. Numa delas, a cabeça está pousada de lado, noutra a cabeça está voltada para baixo. É um mistério a origem destas figuras e a intenção da sua colocação neste lugar e  nesta posição. São muitos os rumores e mitos em volta delas.

Mas no momento, esquecemos as histórias de amores, ciúmes, despeitos, traições e vinganças associados a Medusa. Chega a perplexidade que aqueles rostos de pedra nos provocam.

Banhos turcos

Sábado, 24 de Abril, 2010

Propuseram-nos uma ida aos banhos turcos a marcar para o penúltimo dia da nossa estadia. Aceitámos logo, associando a experiência a calor, muito calor, humidade, e vapor de água. Antecipámos com prazer a moleza confortável que habitualmente se instala depois de uma estadia na neblina quente.

Sabíamos que um dos “1000 Lugares para Conhecer antes de Morrer” propostos pela jornalista Patrícia Schulz era o haman - termo turco para banho a vapor – Cagaloglu. As fotografias que vimos mostravam um espaço monumental que não reconhecíamos na zona indicada pelo recepcionista do hotel. Foi preciso “tropeçarmos” com o nome escrito no mármore do passeio para identificarmos a entrada deste haman construído em 1741. A entrada encaixada entre lojas passa completamente despercebida …

Mas bastou descer alguns degraus para percebermos que para além daquelas portas o mundo era outro.

O dia marcado para os banhos tinha sido de caminhada e experiências intensas e o corpo pedia descanso e relaxamento. A proposta recaiu nos banhos da praça Cemberlitas junto do Grande Bazar e dos mais famosos monumentos de Istambul.

Aliás, o espaço é considerado um “monumento” construído em 1584 pelo famoso arquitecto Mimar Sinan e que se mantém activo desde a sua construção.

A entrada ainda é mais modesta do que a do haman Cagaloglu, diríamos que até manifesta um razoável mau gosto! Mal entrámos, fomos encaminhados para áreas distintas mas muito semelhantes: a zona dos banhos para homens e para mulheres e os respectivos vestiários. As mulheres, depois de vestida a parte de baixo de um biquíni, enrolaram à volta do peito o “pestemal“, uma toalha grande de algodão com franjas, calçaram umas chinelas e dirigiram-se para a grande sala dos banhos. E aí percebe-se por que razão se pode classificar o espaço de monumento: na grande sala redonda, o chão, a plataforma central, as paredes, as galerias laterais são de mármore de um bege macio. Uma abóbada majestosa cobre a principal sala dos banhos. Dizem que durante o dia jorros de luz provenientes das aberturas da abóbada desenham cones brilhantes por entre os vapores de água.

Depois de colocado o pestemal sobre a plataforma central aquecida cada uma de nós deixou de ser dona do seu corpo: as assistentes com uma “kese” – luva feita de tecido rugoso – ensaboaram-nos, lavaram-nos e literalmente esfoliaram-nos da cabeça aos pés. Depois deram-nos a mão e fomos para uma galeria lateral onde jorraram água em abundância para retirar a espuma. Regressadas à plataforma deitamo-nos e não fora o barulho das conversas do grupo de espanholas e italianas e o momento seria perfeito. Num esforço de abstracção, favorecido pela imagem da cúpula monumental, pensámos nos milhares de mulheres que ao longo de mais de 400 anos, ali, deitadas deixaram que os seus pensamentos e sonhos transpusessem as fronteiras do haman.

AQUI pode-se acompanhar o repórter da BBC Michael Palin numa experiência no haman Cagaloglu.

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O Expresso Oriente

Domingo, 18 de Abril, 2010

A estação de Sirkeci é um lugar de visita obrigatória em Istambul, pela sua arquitectura e pelas memórias que evoca. A traça original do arquitecto August Jachmund mantém-se e os vitrais das suas vastas janelas e portas não perderam o brilho. Mas o que torna a estação um lugar especial no meio de tantos monumentos extraordinários da cidade é a sua associação ao famoso Expresso do Oriente.

Este comboio, propriedade da Companhia Internacional Wagons-Lits, ligava Paris a Istambul numa viagem que durava 80 horas para percorrer 3 094 Km. Na primeira viagem em 4 de Outubro de 1883, deixou a Gare de l’Est, Paris, rumo ao exotismo oriental. A Marcha Turca de Mozart assinalou a primeira partida de tantas viagens que terminaram com o fim da ligação em Maio de 1977.

Quando percorremos o cais onde continuam a chegar os comboios vindos da Europa e da cidade de Erdine, procurámos o ambiente de outros tempos. Mas, apesar do relógio Nacar, do sino que outrora dava o sinal de partida, dos bancos, das colunas, a modernidade das novas composições não permite devaneios. Tivemos de ir ao salão onde se guardavam as bagagens para retomar o tempo de outros tempos: o silêncio do sítio, a penumbra, as cores quentes dos vitrais, o chão brilhante… Um solitário leitor de jornal parece que ficou esquecido no tempo, nem dá conta da nossa presença.

O restaurante, que se chama “Expresso Oriente”, não é famoso pelas refeições que oferece mas não resistimos a sentarmo-nos numa das mesas por algum tempo. Decidimos tomar um chá acompanhado por breves biscoitos para convivermos com as memórias de tempos gloriosos em que acolheu celebridades que continuam a sorrir nas paredes.

Aqui, seguindo as fotografias e os cartazes da época, foi possível imaginarmos o comboio luxuoso que transportava gente habituada às finas porcelanas, aos copos de cristal, às toalhas de linho, às ementas elaboradas. Não é de estranhar que este ambiente requintado tenha servido de cenário para enredos de obras de escritores como Graham Green, Ian Fleming e Agatha Cristie. Sem dúvida que o romance desta autora “Crime no Expresso Oriente”, adaptado ao cinema em 1977 por Sidney Lumet, em muito contribuiu para a imagem mítica do célebre comboio. Não resistimos a inserir uma ligação para o trailer do filme e rever Albert Finney, Laureen Bacall, Ingrid Bergman, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave e, entre outros, o comboio. AQUI.

Ficará para a próxima viagem a Istambul reencontrar a estação à noite, envolta em nevoeiro, e imaginar a chegada do Expresso do Oriente.

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Torre Galata

Terça-feira, 26 de Janeiro, 2010

Um dos primeiros sítios a visitar é a Torre Galata pois permite apercebermo-nos da geografia particular de Istambul. É uma torre de pedra com quase 70 metros de altura com paredes de 3.75 m de espessura que foi construída em 1348 sendo na época o edifício mais alto da cidade.

A vista panorâmica que se tem é única: a ponte Galata, o Palácio Topkapi, a mesquita Sultan Ahmed (mesquita azul), Hagia Sophia, o mar da Mármara, a coluna de Constantino, o Bósforo …

Qualquer hora do dia é boa para se  subir ao topo da torre embora a hora do meio dia não seja a mais aconselhável para a fotografia. Aconselhamos vivamente o entardecer porque se pode acompanhar a mudança da cidade do dia para a noite. Ouvimos os chamamentos à oração quando estávamos no topo da torre: o encadeamento dos cânticos de dezenas de muezzins, das dezenas de mesquitas da cidade chegou a provocar arrepios pela estranheza do som, pelo lugar, pela hora do dia, pela cidade que ia escurecendo. Este ambiente fez-nos esquecer a fotografia e as máquinas ficaram muitas vezes em cima do parapeito. Só percebemos isso depois. Temos de voltar.

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Os fontanários

Segunda-feira, 11 de Janeiro, 2010

Os fontanários dão pena, parados, quietos sem águas, sem saída. Rua sim, rua não, encontrámos fontes, brancas de origem, acinzentadas pelo tempo. Não sabemos o que lhes aconteceu, talvez deixassem de ser úteis por via da água canalizada. Mesmo assim, caladas, secas, permanecem.

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A escola

Domingo, 10 de Janeiro, 2010


Passávamos todos os dias por uma escola, geralmente silenciosa com os alunos em aulas. Um dia ouvimos surpreendidos o toque de saída: em vez da campainha trim-trimmmmm, algumas notas da peça “Para Elisa” de Beethoven. Som a lembrar um toque de telemóvel, mas apesar de tudo, Beethoven.

Descida até ao mar de Mármara

Domingo, 10 de Janeiro, 2010

O mar de Mármara fica a dez minutos a pé do hotel. Caminhávamos nas ruas de pedra em declive, molhadas, a exigir cautelas. Esse percurso oferecia encontros mais ou menos  inesperados: os restos de um cemitério num gaveto, pescadores com canas ao ombro, mercearias com as frutas à porta, barbearias, cafés … Nas zonas mais íngremes, os miúdos desciam velozmente  sentados em skates a lembrar os carrinhos de rolamentos. Pela porta das ruínas de uma muralha entrevíamos a luz do Mar de Mármara.  Estávamos quase lá!

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O Hotel Tashkonak İstanbul

Segunda-feira, 4 de Janeiro, 2010


O hotel onde se fica é uma parte importante da cidade e do modo como a vivemos: o sítio, as pessoas, o pequeno almoço, os pequenos pormenores e o que se oferece à vista. O Hotel Tashkonak fica na zona velha da cidade, nas traseiras da Mesquita Azul, a poucos minutos do mar de Mármara (ver mapa). É uma antiga casa otomana do século XIX, em madeira, que foi restaurada e transformada em hotel. Na zona, estas casas – konaks – ou estão em ruínas devido aos incêndios ou ao abandono ou foram recuperadas para o turismo.

Da janela do nosso quarto víamos os minaretes da Mesquita Azul e o pequeno jardim do rés-do-chão. Mas era o terraço e a sala do pequeno almoço que em qualquer hora do dia ofereciam o privilégio de deslizar o olhar até ao outro lado da cidade atravessando o mar de Mármara.

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