Já confessámos: a nossa experiência em Istambul foi muito marcada pelo livro de Pamuk Istambul – Memórias de uma Cidade. Os relatos sobre as suas vivências na infância e na adolescência desenharam um mapa sentimental da cidade que procurámos explorar.
Foi o huzun, que o Google Tradutor traduz por tristeza, que mais nos sensibilizou levando-nos à descoberta das suas manifestações. E a questão começa logo na forma como o termo é traduzido e que Pamuk esclarece: “… huzun (muito próximo de melancolia) é um sentimento interiorizado com orgulho e ao mesmo tempo partilhado por toda uma comunidade”. Não é, portanto, um sentimento individual, não é a melancolia experimentada por uma pessoa, é do huzun, da melancolia da cidade que se trata.
Em Istambul, procurámos os locais, as personagens, as situações identificadas por Pamuk em que o sentimento de melancolia se manifesta: os homens que pescam na ponte Galata, os barbeiros e os alfarrabistas que se queixam da crise, as crianças que jogam à bola na rua, as mulheres de lenço islâmico que esperam em silêncio o autocarro, as multidões apressadas para apanhar os vapur, os cemitérios no centro da cidade…E nesta busca, encontrámos outras formas que aos nossos olhos manifestam huzun.
Em Dezembro, na paisagem dominam o preto, o branco e os cinzentos que parecem contaminar as pessoas que usam roupas acinzentadas, indistintas. Os mármores gastos das fontes e das mesquitas reforçam o tom que domina a cidade. Este ambiente tinha para nós um sentido poético e desse ambiente só poderíamos fazer fotografias a preto e branco.
Vamos expor no Fórum da FNAC de Sta. Catarina, no Porto parte do roteiro da melancolia em Istambul. A exposição que inaugura no dia 8, sábado, pelas 17:00 fica por lá até ao dia 28 de Maio.



A sugestão de Elsa Viegas no post Poemas 1 – proximidade do conceito de hüzün com o de sofrimento de Cesário Verde – colhe opinião junto do escritor e jornalista Tiago Salazar, que numa reportagem sobre Istambul no jornal I, refere:
“O hüzün do escritor Orham Pamuk, a doença que afecta dezasseis milhões de almas turcas e um sentimento sem igual que une a cidade aos seus habitantes, está para Istambul como o desejo absurdo de sofrer esteve para o poeta Cesário Verde, a melancolia consumiu Pessoa ou a saudade verga qualquer alfacinha sentimental”.
Estou com vontade de visitar Istambul… Mas, para já, vou contentar-me com a visita à exposição, amanhã. Pode ser que nos encontremos por lá.
Parabéns pelo blog.
Um abraço.