Fomos à procura do que não existia …

Foi isso que aconteceu: fomos à procura do que não existia e encontrámos/não encontrámos. Antes de regressarmos a Istambul, lemos o Museu da Inocência de Pamuk. Na página 15 o Nobel da Literatura turco dá-nos todas as indicações para encontrarmos o museu, incluindo um mapa.

O Museu da Inocência (Masumiyet Muzesi) seria um lugar especial que guardaria todos os objectos recolhidos por Kemal, testemunhos da desmedida paixão por Fusun. A história, passada entre Maio de 1975 e os últimos anos do século XX, conta-se rapidamente, sem que isso retire qualquer interesse a futuros leitores: Kemal é um jovem empresário filho de uma família abastada, frequenta os meios burgueses de Istambul e está noivo de Sibel, uma turca moderna que conhece bem a Europa. Passa parte do Verão numa casa nas margens do Bósforo (yalis) e com os seus amigos partilha uma admiração pelo modo de viver europeu. Perde-se – literalmente perde-se – de amores por uma prima afastada que é empregada de balcão.

Esta paixão obsessiva leva-o a recolher objectos que Fusun tocou ou usou e que ele guarda: beatas (mais de 4 000), travessões, brincos, lenços, sapatos, bilhetes de cinema e de autocarro, copos usados por ela. Com estes objectos decide preservar a sua paixão num museu, o que o leva a visitar 1743 museus do mundo para usar a metodologia mais adequada à sua constituição.

Pegámos no mapa e fomos à procura do museu que fora instalado na última residência de Fusun, na zona asiática de Istambul:
“A casa onde a família de Fusun, os Keskins, vivia ficava na esquina da Avenida de Çukurcuma (vulgarmente conhecida por “colina de Çukurcuma”) e da vereda conhecida por “Rua Dalgiç”. Como podem ver pelo mapa, uma caminhada de dez minutos separava as ruas sinuosas e inclinadas daquela zona de Beyoglu e da Avenida Istiklal”. (p. 358).

A descrição do percurso e o mapa incluído no livro levaram-nos facilmente ao local. Passámos pelo Hamman (banhos turcos) por onde Kemal tantas vezes passou para ver Fusun.

Na esquina da Avenida Çukurcuma com a Rua Dalgiç lá estava uma casa vermelha de três pisos que se destacava de todas as outras porque era evidente ter sido recentemente restaurada. A casa parecia vazia à espera do recheio. Em lugar algum havia qualquer sinal que indicasse ser ali o espaço onde Pamuk irá preservar a cidade das últimas décadas do século XX: postais, roupa interior, chávenas e tantos outros objectos de uso diário recolhidos pelo escritor ao longo dos anos.

Nas suas palavras, “Quero que o meu museu seja o museu da cidade, que inclua tudo, desde mapas das ruas, a fechaduras, a maçanetas de portas, passando por telefones públicos e o som das sirenes de nevoeiro”. Afinal, “documentos de uma Istambul que já não existe e um olhar poético ao passado da cidade através dos olhos de um apaixonado”, “Quero encher [o museu] modestamente com as coisas que fazem a cidade, que fazem qualquer cidade”.

As 639 páginas do romance são, assim, muito mais do que a história de um amor desmesurado de um homem por uma mulher: são antes de tudo a manifestação do amor por Istambul e o desejo de preservar a memória de uma cidade, de um tempo marcado pela nostalgia, pelo huzun.

A inauguração do museu está programada para 2011, um lugar entre a ficção e a realidade, um lugar que encontrámos/não encontrámos. Temos de voltar quando o Museu da Inocência abrir e mostrar a página 626 do livro onde está um bilhete que dá direito a uma entrada individual num lugar onde parte da memória sentimental de Pamuk reside.

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9 Comentários a “Fomos à procura do que não existia …”

  1. dalia diz:

    É um viático excelente. Que dizer? O verdadeiro olhar viajante, o genius loci, autêntico. E a literatura, o vento da própria memória.

  2. Alda Sousa diz:

    Eu li o livro no Verão passado (2010). Gostei muitíssimo. Da leitura fiquei com dúvidas se haveria ou não Museu. Depois li que sim, que estava em construção. Também gostaria de voltar depois da abertura do Museu

  3. Orlando diz:

    Em Nova Delhi comprei o livro The Museum of Innocence para ler na viagem e acabar de o ler em Portugal, por fim fiquei na dúvida existe ou é ficção, pelos meus amigos fico a saber que não existe mas também não é ficção, mais uma razão para voltar a essa cidade que tanto me tocou e tantas saudades me deixa, mais uma vez espero lá ir e se possível voltar, em cada viagem há mais um recanto, um olhar, uma rua que justifica a viagem e mais uma vez obrigado Manuela e João.
    OJR

  4. istambul5dias diz:

    Acho que partilhamos esse sentimento de inquietação relativamente ao museu ficção/realidade.
    A sua procura permitiu que explorássemos uma zona da cidade que não conhecíamos. Só por isso, valeu a pena!

  5. Nelson diz:

    Não é por acaso que se é um Nobel…
    Não li ainda o livro, mas este post abriu-me a curiosidade. Obrigado e parabéns à Manuela & João pelo excelente blog.
    abraço e bom ano!

  6. Priscila diz:

    Terminei de ler o livro de Pamuk ontem. Torno minhas as palavras do Nelson: “Não é por acaso que se é um Nobel”. Estou indo para a Turquia na quinta-feira, 7 de julho de 2011, e fiquei pensando se o Museu realmente existia, por causa do mapa. Vim, claro, pesquisar na Intranet e acabei entrando aqui. Foi com encanto que vi as fotos da ladeira de Çukurcuma, gostaria de passar por lá. Será que o Museu já estará aberto? :)

  7. istambul5dias diz:

    Pensamos que ainda não está aberto. Contudo, vale a pena uma ida até lá porque é a oportunidade de conhecer uma zona muito particular da cidade. Boa viagem e manda notícias.

  8. Olá pessoal !!!!

    estive no Museu da Inocência na semana passada e acreditem…..ainda continua fechado !!!!! : (
    Pintaram de vermelho a parte de baixo do prédio e colocaram uma placa de metal com desculpas por ainda estar em construção. Algumas pessoas trabalhavam no local e eu tentei espiar pelo vão da porta e das janelas mas não consegui ver nada de interessante ainda. É uma pena, né não ??!! Na verdade, eu acho um absurdo não terem terminado ainda — bom, muuuito obrigado mesmo pelas dicas — em Istambul consultei novamente seu blog pra pegar o endereço, e hj estou pegando umas fotos….
    Valeu gente…
    abraços,

    Felipe Montagnana Antunes
    montagnana_antunes@hotmail.com

    ****ah, também visitei 2 casas que dizem serem moradias de Orhan Pamuk… sugiro que leiam o Livro ISTAMBUL dele: é uma ótima revisão da história local.

  9. istambul5dias diz:

    Soubemos que o Museu da Inocência será inaugurado em 2012. Esperemos até lá, mas que tarda, tarda!

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