Cemitérios

Confessamos que gostamos de cemitérios. Mesmo antes de serem descobertos como espaços a explorar do ponto de vista turístico, visitámos cemitérios porque são lugares onde se manifesta a cultura de um povo, onde se compreende a relação entre os vivos e os mortos e onde a arte e a natureza se misturam de uma forma muito particular.

São quatro os cemitérios que mais nos marcaram: Père-Lachaise (para muitos, o lugar mais romântico de Paris), o cemitério de Cólon em Havana (com uma monumental estatuária), o cemitério de Swokopmund  na Namíbia (onde o apartheid se mantém após a morte) e o cemitério de Eyüp em Istambul. Deixamos para um outro post a visita a este lugar. O que nos marcou em Istambul foi a forma como os vivos convivem nos cemitérios no centro da cidade. É disso que vamos falar.

Um cemitério turco é uma floresta de colunas de mármore branco de diferentes alturas. Em princípio o tamanho da coluna corresponde ao tamanho real do morto ainda que haja excepções: o estatuto social elevado pode elevar o tamanho da coluna atingindo, no caso de alguns sultões, dimensões não humanas. As colunas que terminam num turbante sinalizam um túmulo masculino; os florões estão reservados às mulheres. Das inscrições incompreensíveis gravadas no mármore só retiramos o efeito estético. Passeámos sem reservas por entre a floresta de túmulos e árvores usufruindo do efeito da mistura das formas e das cores branco e verde.

Mas há muito mais: quando há 12 anos visitámos pela primeira vez a cidade, tivemos uma experiência que nos espantou no sentido literal do termo: em pleno cemitério havia uma casa de chá com uma agradável esplanada. Sentamo-nos numa mesa entre turcos que cavaqueavam vidas (achámos nós!) e pedimos um café e um chá de menta.

Renovámos esta experiência que nos trouxe de novo o sentimento único da relação entre viver e morrer. De facto, nunca convivemos desta maneira num lugar onde, geralmente, domina apenas o silêncio e o recolhimento. Não seria preciso mais para estes cemitérios nos marcarem. Por isso, voltaremos a trazer aqui estes lugares.

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8 Comentários a “Cemitérios”

  1. Samir diz:

    Olá,
    eu adorei a sua iniciativa sobre este blog. Istambul é o meu sonho de cidade, espero um dia poder morarr aí. Enquanto isso não ocorre eu visitarei sempre o seu blog!
    Então muito obrigado por abrir este canal do qual eu posso desfrutar muito!
    Samir

  2. Bom dia, tive conhecimento do vosso blog através do querido Tiago Cação, como amante de Istambul estou a gostar imenso da vossa inciativa. Estive lá há exactamente 2 anos, fiquei apaixonada e espero voltar em breve. Decidi comentar este post pois assim como vocês também estivemos nesse mesmo cemitério a beber o famoso “çay”. E o caricato da situação é que mesmo num local que nunca é associado a lazer, sentimo-nos bem e por ali ficamos durante algum tempo a observar e a sentir Istambul em toda a sua essência. Continuem com este projecto e boa sorte.

  3. istambul5dias diz:

    É sempre bom encontrar alguém que partilha experiências e sentires semelhantes aos nossos! Esperamos que continue a aparecer por aqui. Bem-vinda!

  4. Ana Franco diz:

    Muito, muito interessante!
    A propósito, descobri umas fotos antigas que tirei no cemitério dos Prazeres em Lisboa . Lindíssimo lugar também

  5. Paulo Martins diz:

    Olá!
    Quando estive em Istambul pela primeira vez em Agosto, a minha primeira visita logo de manhã foi precisamente este cemitério. Muitas saudades tenho desta cidade.
    Continuem com este blog :)

  6. No Islão a vida é uma passagem para a vida iluminada no além, uma vida preenchida por obrigações de solidariedade, um dos pilares do Islão. Interessante que este cemitério nobre de Istambul seja semeado de pilares com inscrições otomanas, aquela caligrafia elevada, leve e dançante que marcou toda uma civilização que se expandiu pelo Oriente Médio. Uma civilização que foi uma passagem longa na região que deixou vestígios nos cemitérios, arquitectura e linguagem da Palestina (actual território de Israel). Os cemitérios árabes de Telavive, e outros lugares israelitas, abandonados, conspurcados, com os seus portões ferrugentos fechados a cadeado; a caligrafia da grande civilização otomana vergada ao abandono! Mas tb. na Turquia há cemitérios situados entre aldeias à beira da estrada sombreados por árvores solenes, cujas lápides modestas foram invadidas pelas ervas daninhas, alegradas com as inesperadas pinceladas de cor que lhe dão os singelos ramos de flores silvestres levados por algum saudoso; afinal a vida é apenas uma passagem que não precisa ser eternizada por mausoléus…

  7. ana cláudia diz:

    eu também estive nesse cemitério, fica relativamente perto de uma universidade (universidade de istanbul, se não me engano), tirei algumas fotos ao espaço exterior e ao “espaço interior” que não compreendi se era cemitério ou museu (havia alguns caixões, com turbantes no topo) …foi uma expriencia nova
    abraços
    ana*

  8. istambul5dias diz:

    Na Cinemateca Portuguesa (Lisboa) temos, até 31 de Março um exposição de fotografias sobre Istambul juntamente com fotografias de um fotojornalista turco sobre Lisboa. Procuramos reconhecer a melancolia de que Pamuk fala nas suas Memórias de uma Cidade. Se tiver hipótese, apareça!

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