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Aquele chão …

Domingo, 9 de Maio, 2010

Todas as inaugurações das nossas exposições de fotografias são acontecimentos especiais por tudo o que está envolvido na sua concepção e preparação, mas sobretudo pelos pequenos nadas (que são pequenos “tudos”) que acontecem no encontro inaugural.

No sábado, o fórum da FNAC de Sta. Catarina foi-se enchendo de amigos, de curiosos ocasionais, de amantes de Istambul que procuravam reconhecer a cidade visitada, de amigos fotógrafos, de mestrandos turcos em universidades do Porto, de turistas acidentais que passaram e foram ficando.

O samovar trazido pela Associação Luso Turca lembrava a promessa de um chá no fim da sessão e os doces lokum cor-de-rosa brilhavam em cima do piano coberto. Apercebemo-nos, pouco antes de começar, de uma falha: a música de fundo era um jazz de qualidade mas o momento precisava de outro som, achávamos nós. Mas há falhas felizes: o Pedro providenciou um som múltiplo de várias bandas turcas que se reuniram no CD “Twilight Istambul”. Este som mostrou o seu efeito nas pessoas que literalmente esgotaram o stock de exemplares disponíveis.

Na nossa intervenção não poderíamos deixar de convocar o Tiago Salazar, companhia nos cinco dias em Istambul, reforçando ainda mais o sentido do título de um dos seus livros “Viagens sentimentais”. Remetemos o nosso percurso da melancolia ao nosso guia, Pamuk, que continua a dar-nos a conhecer a cidade mesmo depois de a termos deixado. Nas caras de tantos percebemos o reconhecimento que o nome dos lugares provocava e ousamos dizer que as saudades andavam por aqueles olhares que se iam perdendo nas imagens e nas palavras. Na hora, não pudemos deixar de olhar com um pedacinho de inveja para a Alice que há dois meses teve o privilégio de ver Istambul coberta de neve.

Mas foi à volta do chá e dos lokum com sabor a rosas que os encontros e reencontros se reforçaram, que as conversas se multiplicaram ao longo de mais de uma hora. Os amuletos contra o mau-olhado iam sendo guardados nas carteiras e nos bolsos – “Não somos supersticiosos mas mal não faz e bem nunca se sabe”.

Mas nestes encontros inaugurais há sempre um momento especial (que nos perdoem todos os outros momentos): um visitante desconhecido abordou-nos e apontando para uma das fotografias perguntou se “aquele chão” era o chão do primeiro andar da Hagia Sophia.

Dissemos que sim, admirados pelo reconhecimento daquele mármore cheio de veios partidos pelos passos de tantos e pelos tremores de terra. E com um “Bem me parecia!” desapareceu. Não sabemos quem era aquele que fixara como nós um pedaço de chão apesar do esplendor dourado das cúpulas, das colunas majestosas, e das luminárias da mesquita. Percebemos o sortilégio de uma cidade que provoca tantas experiências sentidas e partilhadas e que justifica que no Porto, para além da nossa exposição na FNAC, Teresa Lamas Serra na Axa Seguros fixe Istambul nas suas fotografias.