Arquivo do mês de Junho, 2010

Turcos timbres (1)

Terça-feira, 29 de Junho, 2010

Que fique claro: não conhecemos a música turca! Gostamos desde há muito tempo dos sons exóticos, do ambiente da música daquelas bandas. Num dicionário de sinónimos encontrámos outras palavras para “exótico”: extravagante, excêntrico,  estrambólico, singular, fantástico: … De todas as palavras singular é o termo que mais se aproxima da imagem que temos da música turca.

Percebemos que os cantores e as bandas actuais fazem actualmente o que se pode designar por música de fusão em que os sons da música tradicional turca se misturam com as várias correntes da música contemporânea: jazz, rock, pop, funky, rap, música electrónica …

Já dissemos no post em que comentámos a nossa exposição de fotografia que teve lugar na FNAC (“Aquele chão”) que foi o Pedro que escolheu para música de fundo o duplo CD “Istanbul Twighlight”

Foi uma verdadeira descoberta! Para além dos 21 temas que constituem o álbum (reproduzimos o índice mais abaixo)  há dois vídeos excelentes. Um deles é “Gara Guna” do realizador Gurkan Keltec. A música é de um autor anónimo. A ver e ouvir AQUI

Tracklist de “Twilihgt istambul”

CD 1
01. Intro – Orient Expressions
02. Ab-i Beste – Mercan Dede featuring ozcan Deniz
03. Cecom – Baba Zula featuring Brenna McCrimmon
04. Bicare – Taksim Trio
05. Ennio – Ilhan Ersahin
06. Love – Craig Harris & the nation if imagination featuring Barbaros Erkose & Carla Cook
07. Bir Demet Yasemen – SOS
08. Ben Seni in Dub – Shantel vs. Kazim Koyuncu
09. Opaz – Burhan ocal & Trakya All Stars featuring Smadj
10. Gozyasi – Selim Sesler
11. Kanun Solo – Taksim Trio

CD 2
01. Maziden – Orhan Osman
02. Arda Kalan – Cahit Berkay & Grup Zan
03. Dem – Mercan Dede featuring Azam Ali
04. Sehristan – Orient Expressions
05. Bogazici – Burhan ocal
06. Islak Sevdalilar – Baba Zula
07. Gara Guna – Burhan ocal & Trakya All Stars featuring Smadj
08. Engewal – Mercan Dede
09. Baglama Solo – Taksim Trio
10. Outro – Orient Expressions

O Hipódromo de Constantinopla

Quinta-feira, 24 de Junho, 2010

A caminho do hotel passávamos todos os dias pelo Hipódromo. A familiaridade do lugar impedia-nos de o ver, mas numa noite regressados de um passeio pelas bandas da ponte Galata, “descobrimos “o Hipódromo de Constantinopla, que hoje se chama  Sultanahmet Meydanı (Praça Sultão Ahmet).

Naquela hora estava vazio, silencioso, molhado, forrado a sépia pela luz amarela dos candeeiros. Olhámos como se fora a primeira vez o lugar que foi o centro desportivo e cultural de Constantinopla, a cidade de Constantino. Foi este imperador que transferiu o governo de Roma para Bizâncio transportando para a cidade obras provenientes de todo o mundo. A coluna da serpente, como é conhecida, veio do Templo de Apolo em Delfos, e era então rematada por uma bola dourada  suportada por três cabeças de serpente. Às cruzadas, guerras e saques só resistiu a coluna ondeada e algumas peças que se encontram no Museu Arqueológico de Istambul.

No centro da praça, ergue-se um enorme obelisco egípcio. O cume perde-se na escuridão da noite com os hieróglifos a lembrar a sua origem. Foi Teodósio, o Grande, que fez transportar nos finais do século IV o monumento em granito rosa que fazia parte do Templo de Karnak em Luxor (1500 a.C). Para registar a sua marca pessoal, Teodósio colocou o obelisco num pedestal de mármore com cenas do imperador e da sua família a apreciar as corridas..

É difícil imaginar aquele espaço original em forma de U com 100 000 espectadores que se emocionavam com as corridas de cavalos e que apoiavam as diferentes equipas: os Azuis, os Brancos, os Roxos , os Verdes … É difícil imaginar a pista de então decorada com estátuas de bronze de cavalos e de aurigas famosos. Tudo desapareceu! Mas é possível rever uma quadriga em bronze que ficava no extremo norte do Hipódromo de Constantinopla: os quatro cavalos estão na fachada da Catedral de S. Marcos. Precisamente: em Veneza.

Seguir as andanças de tantas obras saqueadas por todo o mundo daria, por certo um roteiro de viagem que só a História pode justificar.

(mais…)

O fim duma viagem é apenas o começo de outra.

Sábado, 19 de Junho, 2010

“O fim duma viagem é apenas o começo de outra.

É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que já se viu no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.

É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles.

É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

O viajante volta já.”

José Saramago, Viagem a Portugal

O Bósforo

Terça-feira, 15 de Junho, 2010

Foi através do diário2.com que soubemos que, no dia 14 de Junho, a página mais editada na Wikipedia foi Bósforo com 62 edições. Desconhecemos a causa deste interesse pelo estreito que marca o limite entre a Ásia e a Europa.

Em turco, Bósforo diz-se Bogaz que significa garganta. Ficamos, entretanto, a saber que Bósforo etimologicamente significa “passagem do boi” (de Βοῦς – boi  e πόρος – passagem) e mais uma vez é a mitologia grega que lhe associa uma narrativa. Zeus apaixonou-se por Io, sacerdotisa de Hera, e, para proteger a sua amada da fúria da sua mulher, o deus dos deuses transforma Io num boi. Apesar disso, Hera descobre tudo, persegue-a e, na sua fuga, Io atravessa a nado o estreito que liga o Mar de Mármara ao Mar Negro. A história ficou e o nome também.

Uma das experiências que dá a conhecer uma imagem única de Istambul é atravessar o Bósforo num vapur das linhas urbanas, o ferry usado pelos istambulenses nas suas constantes travessias de uma margem para outra.

Depois de termos comprado o bilhete na gare, atravessámos as zonas cobertas do vapur. São espaços confortáveis com amplas janelas para o exterior mas optámos pelo deck descoberto. O vento proyaz vindo do Mar Negro era frio de verdade, mas queríamos o contacto mais directo possível com o mar, as gaivotas e, sobretudo, com a cidade de ambos os lados.

Pamuk no seu livro Istambul – Memórias de uma cidade, no capítulo 6 Descoberta do Bósforo, recorda os passeios de barco que fazia na sua infância com Istambul desfilando à sua frente. E faz questão em esclarecer que “Esta massa de água que passa no coração da  cidade não pode em caso algum ser comparada com os canais de Amesterdão ou de Veneza, nem com os rios que sulcam Paris ou Roma: aqui há corrente, vento, profundeza, trevas”. Pelas suas palavras percebemos que a luz do Bósforo nas diferentes estações do ano transfigura a própria cidade. “O Bósforo é dotado de um espírito muito singular” .

Pamuk termina este capítulo dizendo: “A vida não pode ser assim tão má. Seja como for, afinal de contas podemos sempre ir dar um passeio para os lados do Bósforo”.

Livrarias em Istambul

Terça-feira, 8 de Junho, 2010

Uma das surpresas de Istambul são as livrarias. É fácil perdermo-nos nos espaços que são mais do que postos de venda de livros. A primeira que nós visitámos foi a livraria Robinson Crusoe que nos seus sacos em papel pardo regista o seguinte:

Robinson Crusoe

1. O herói do romance de Daniel Defoe, “ A vida e as extraordinárias aventuras de Robinson Crusoe”, publicado em 1719.

2. Uma livraria com um estilo muito próprio, localizada em Pera, Istambul, no nº 389 da rua Istiklal. Um armazém de livros escolhidos estabelecido em Setembro de 1994. Um arquivo onde se encontram livros à disposição, acessíveis a todos. Uma praça, ponto de encontro não só dos que olham e ouvem mas também dos que vêem e escutam. Uma livraria onde se vai não só para comprar livros mas para os procurar, perguntar por eles, percorrer e cheirar as folhas, e encontrar, descobrir e mesmo escrever livros”.

E se muitas vezes o texto publicitário é enganoso, neste caso é apropriado à realidade. Na livraria Robinson Crusoe perdemo-nos, literalmente, por entre os labirintos das prateleiras de madeira castanha escura. Dizem-nos que a livraria tem mais de 40 000 livros e nós acreditamos. Aproveitámos o lugar para comprarmos um livro de fotografia de Ara Guler e um livro de cozinha turca. Ficaram os olhos na secção de poesia turca e, no momento, achamos que faria todo o sentido aprendermos turco.

A Pandora, fica também na rua Istikâl bem perto da praça Taksim num prédio moderno. São três andares de livros em que os clássicos e a ficção contemporânea convivem. Não tivemos oportunidade de explorar todo o espaço porque entrámos uma hora antes de fechar, e uma hora neste lugar é quase nada.

Ficou por visitar a livraria Homer que nos foi vivamente recomendada: são mais 30 000 títulos especializados em arte, arqueologia, história e arquitectura. Tal como noutras situações, aqui está mais um motivo para regressar a Istambul.