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Café Kafka

Sábado, 14 de Maio, 2011

Gostamos muito de cafés. Na nossa cidade, privamos com os mais aconchegados, geralmente os mais antigos. Em viagem, os cafés fazem parte das nossas experiências mais sentidas: são os lugares onde vemos a vida a passar, onde esticamos mapas para ver onde estamos e para onde vamos, onde revemos os momentos mais fortes do dia, onde espreitamos as fotografias. É nos cafés que folheamos os jornais do país, onde lemos pedaços de livros que viajam connosco, onde sentimos saudades do “café café” português.


Foi por acaso que encontrámos o café Kafka, ao ler uma tabuleta num início de noite. Duvidaríamos da sua existência não fora vermos clientes sentados na varanda. Foi com alguma hesitação que entrámos numa porta indistinta e subimos umas escadas estreitas como se de uma habitação qualquer se tratasse. Aberta a porta, encontrámos na penumbra um espaço surpreendente: salas de tamanho médio mobiladas com sofás antigos, móveis de época, espelhos lapidados de toucador, apliques de seda … Nas mesas e cadeiras de diferentes formatos estavam sobretudo jovens que liam ou teclavam nos seus computadores.

Pedimos dois cafés e cuidámos com prudência para não bebermos o pó, a borra que descansa no fundo da turca chávena. No dia anterior, o entusiasmo da conversa e o hábito de beber tudo cobriu-nos os dentes de pasta de café amarga; dois copos de água limparam mal o sorriso preto acastanhado!
A música de fundo era um jazz swingado que não interferia nas conversas sussurradas e fizemos questão de saborear e fotografar discretamente a calma e a beleza do lugar.

Por corredores estreitos encontrámos a escada para o piso de cima. As salas eram semelhantes, com a decoração a lembrar a década de 20. Alguns solitários liam o jornal, uma família conversava baixinho e quando nos aproximámos de uma varanda para fotografar a rua, um dos jovens de uma mesa meteu conversa. Era emigrante na Alemanha e já tinha visitado Lisboa. Dos clichés de turista apressado, passou a fazer perguntas sobre a nossa experiência em Istambul e deu sugestões. Traduzia a nossa conversa para os amigos que não falavam inglês e que iam devolvendo sorrisos como resposta.

Como já ia ficando tarde, saímos com a certeza de voltar. Não sabemos quantos cafés no mundo usam o nome de Kafka. Recordámos com sobressalto “A Metamorfose”. Deixámos o pesadelo de Gregor Samsa transformado num monstruoso insecto. Preferimos àquela hora pensar que seria um bom projecto desenhar um roteiro de viagem para visitar todos os cafés Kafka do mundo. Contentes com a ideia, fomos para o hotel dormir.

Café Kafka
Yeni Çarşı Caddesi 10, Istanbul